Recordatórios #2

O Dia em que o Pink Floyd virou um Dinossauro no Cariri

Uma das traduções que mais me deram trabalho foi justamente minha primeira. A Era do Gelo - Coleção de Animais era uma revista quinzenal que trazia um cubinho com um dinossauro ou personagem do filme para colecionar e formar uma parede com todos ao fim da coleção.

Foi difícil por vários motivos, e vou enumerar alguns aqui pra vocês terem uma ideia melhor:

  • os personagens iam de bioma em bioma, então, numa semana eu tinha que pesquisar a tundra na Rússia, em outra a Patagônia e depois as ilhas do Havaí;

  • a revista tinha vários passatempos e receitas, que nem sempre tinham ingredientes fáceis de se encontrar no Brasil. (A revista era originalmente publicada na Inglaterra, pela Eaglemoss);

  • quando eu mencionei passatempos, no item anterior, tentem, apenas tentem imaginar o que era produzir caça-palavras, cruzadinhas e quebra-cabeças com palavras que constavam na edição. Era comum um pássaro ser chamado em inglês, digamos... de “shrebblez” e em português ele virar algo como “pintassilgo-cinzento-eloquente-do-bico-em-forma-de-bumerangue” (ambos nomes fictícios, já minha memória já não alcança tão longe). E, sim, eu tinha que me virar pras “novas” palavras caberem mais ou menos no espaço das anteriores, que estavam em inglês;

  • a comunidade científica se orienta pelos nomes científicos dos animais, pouco importando como cada região chama o bicho. Assim, encontrar plantas, animais e dinossauros (não perde o foco) endêmicos é uma parte da tarefa. Passar o nome científico pra algo que uma criança entenda, é outra coisa. Um exemplo: o puma (Puma concolor) é encontrado do Canadá até a Patagônia, e vai mudando de nome: cougar, puma, leão-da-montanha, pantera, onça-parda, suçuarana e leão-baio. Acreanos e gaúchos, embora brasileiros, dariam nomes diferentes, e a revista teoricamente circularia em todo o território;

  • pra piorar, a revista trazia “curiosidades” do tipo: as 7 árvores mais raras do mundo (algumas só têm um espécime vivo), ou os peixes que foram extintos há 200 anos e coisa do tipo. Qual a chance de uma dessas criaturas, encontrada, sei lá, apenas nos arredores de um vulcão na Indonésia ter um nome em português do Brasil? Pra facilitar a vida da criançada, eu saía do nome em latim, traduzia pra uma língua mais próxima (italiano, espanhol) e só então passava pro português;


No volume 12, os personagens da Era do Gelo chegam ao Brasil pra falar de dinossauros voadores. Sim, pterodáctilos e seus parças alados eram bastante comuns por aqui.

Era do Gelo #12

O bioma da vez era a Caatinga, no Nordeste. Um dos dinos que as crianças deveriam encontrar em uma das atividades era um belíssimo Tupuxuara. Pesquisando sobre o dinossauro, descobri que seus fósseis foram encontrados na Formação Santana, na cidade cearense de Santana do Cariri, perto da divisa com Pernambuco.

Tupuxuara

A terceira e última espécie dos tupuxuaras a ser descoberta foi o Tupuxuara deliradamus, cujo crânio tinha a forma de um diamante. Quem o descobriu em 2009 foi o britânico Mark Witton, que fez a associação entre o diamante que dava forma ao crânio e a música do Pink Floyd, Shine On You Crazy Diamond, do disco Wish You Were Here, de 1975.

Deliradamus é a junção das palavras em latim delirius (louco, insano) e adamus (invencível, mas também deu origem a diamante. Isso te lembrou adamantium? pois é).

A música, por sua vez, é uma homenagem ao primeiro cantor, guitarrista e principal compositor da banda, Syd Barrett (1946-2006), que logo após o primeiro disco da banda teve sérios problemas com drogas psicodélicas que afetaram seu estado mental, forçando sua saída da banda em 1968. Depois de dois álbuns solo gravados em condições caóticas, devido à sua condição, e algumas tentativas frustradas e até traumáticas de voltar ao palco, Barrett abandonou a música pra sempre em 1972, aos 26 anos de idade. Recluso em Cambridge, ele decidiu voltar a Londres e apareceu nos estúdios de Abbey Road, coincidentemente durante as gravações do disco citado acima, cheio de menções e homenagens a ele, em 1975.

Quando encontrou a banda, seus velhos amigos custaram a reconhecer a figura sem cabelo, sem sobrancelhas e com muitos quilos a mais, um evento marcante e dramático pra todos os presentes, que não viam Syd há anos. É bom lembrar que, na época, havia muitas lendas urbanas sobre ele, e quase não se sabia sobre seu estado de saúde ou o que andava fazendo. Apesar da breve carreira, Syd foi uma das figuras que mais transformou o rock, tanto na estética psicodélica e no modo de tocar guitarra, quanto trazendo elementos da literatura clássica inglesa, da fantasia do século XIX e dos quadrinhos (sim) pras paradas de sucesso da música pop. Mas isso vai merecer outra coluna.

Syd Barrett em 1975 (à esq.); Syd Barrett (azul) e Roger Waters em 1967 (à dir.)

Traduzo aqui um trechinho da música, mas recomendo um pulinho no youtube (links abaixo). Tem bastante coisa sobre o making of do disco, sobre Barrett e sobre a tal visita ao estúdio.


Te pegaram no fogo cruzado da infância com a fama

Te jogaram no vento gelado

Vamos, alvo de gargalhadas

Vamos, estranho, lenda, mártir, brilhe.


A visita de Syd:

https://www.youtube.com/watch?v=0kmZxonNJoQ

A canção Shine On You Crazy Diamond:

https://www.youtube.com/watch?v=8UXircX3VdM

Veja um Tupuxuara na forma de uma estátua colorida:

https://www.youtube.com/watch?v=e9Sh2fzu5OY

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