• Carlos Henrique Rutz

O DIA EM QUE VI JUDAS ASSINANDO UM CONTRATO

Antes que os desprevenidos tenham um faniquito, não falaremos do 13º elemento da Santa Ceia, o beijoqueiro de Jerusalém, o padroeiro da trairagem. O Judas de hoje não é uma pessoa, é uma ideia... calma, vou explicar.


Em outubro de 1980, a revista DC COMICS PRESENTS trouxe uma história zero bala de um grupo "recauchutado". Os NOVOS Titãs. O Robin tava lá, o Kid Flash e a Moça-Maravilha também. Só que agora, nas mãos de Marv Wolfman e George Pérez. Ambos morando perto um do outro e trocando ideia em tudo que é café, breja e sei lá que outras substâncias uniam os dois. Só que, agora, eles não eram mais apenas Titãs ou "Turma Titã" como foram no Brasil, sempre em histórias coadjuvantes estreladas pelos coadjuvantes parceiros-mirins do Batman, Flash e Mulher-Maravilha, agora eles carregavam NOVOS na frente e não faltou novidade.


Só pra começo de conversa, o Mutano ressurge ali como o personagem que conhecemos hoje em dia. Além disso, são criados Estelar, Ravena, Cyborg e o maior inimigo do grupo, o Exterminador. A revista foi um sucesso imediato e tratou a ex-turma com o devido respeito e uma linguagem ágil, moderna, engraçada, ao mesmo tempo em que trazia arcos sérios e mostrava conflitos internos dos personagens, que estavam em pleno processo de amadurecimento. Eles não seriam uma filial da Liga nem um puxadinho dos heróis principais. Ninguém se chama TITÃ se precisa pedir permissão até pra assistir TV até tarde.



Já um sucesso de público e crítica, começa em 1984 o arco "O Contrato de Judas", que não tem nada a ver com o 13º elemento da Santa Ceia, o beijoq-- enfim, você entendeu. O "Judas" em questão é Dana Markov a.k.a. Terra, loirinha com cabelo tigela que controla as forças da Terra (planeta razoavelmente esférico habitado por nós. A moçoila se infiltra no grupo a mando do Exterminador. As cenas com ele são bastante incômodas. Ela tem 15-16 anos, e aparece fumando e usando roupas íntimas sempre que está no cafofo do Slade Wilson. Nada é dito, mas fica implícito que o Exterminador atravessou algumas linhas ali. A seita do Irmão Sangue também faz parte desse covescote maligno pra acabar com os Titãs.







Mas... a coluna se chama "Recordatórios", então seguem algumas curiosidades dessa tradução:


  • É nesse material que o Robin (à época, universitário) abandona de vez as falas infantis e passa a ser referência pros demais. Mas isso não chega a fazer com que ele fale como Batman (tem uma coluna sobre a maneira do Morcegão falar aqui).


  • Dana Markov só tem esse nome no Brasil. Originalmente, seu nome é TARA Markov, e você já deve imaginar o volume de bullying do Mutano com uma integrante da equipe assim batizada.


  • Em um certo ponto da história, Dick Grayson, disfarçado, vai fazer uma investigação e se apresenta como repórter da Keystone City TeleVision, ou KCTV. Eu não me atentei ao cacófato, mas os leitores acharam que cacete-vê foi uma piada proposital MINHA. Desta vez, não foi intencional.


  • Em inglês, a Dana (Tara) chamava o Mutando de "Greenie", ou "Verdinho" em português fica quase carinhoso, mas a Dana tá é avacalhando com ele, então em português virou abacate / limão / samambaia / melecão, etc...


  • Em uma certa cena, Kiwi, digo, Mutano, dedica e autografa fotos para fãs, ao melhor estilo Renato Gaúcho no Dia dos Namorados em 1985. Ali, aproveitei pra embutir homenagens às namoradas/esposas/filhas, sobrinhas, etc. dos amigos, parentes, etc. Infelizmente, alguns casais já foram desfeitos e gastei caracteres à toa. Outros nomes, como da minha sobrinha Nalu, ficaram gravados pra sempre no coração do Mutano , nas páginas da DC e na vida real.


  • Como eu não sou o Milton Neves e odeio merchan, tirei a marca de sorvete que seria o prêmio da disputa entre Estelar e Moça-Maravilha. Mas, coloco aqui a versão original em busca de patrocínio.




A idade chega pra todo mundo

Quem também tá em crise de chegada à vida adulta é Victor Stone, o Cyborg, lidando com problemas familiares, e Donna Troy, a Moça-Maravilha (já uma moça, de fato), prestes a se casar.


A chegada da maturidade viria a ser um tema recorrente nos Novos Titãs, mas o Contrato de Judas alçou a equipe ao posto de protagonistas, com seus próprios problemas, agora não mais "herdados" de seus mentores. É aqui que vemos o Kid Flash deixar o grupo e Dick Grayson aposentar o colante do Menino-Prodígio, que ele vestiu desde os oito anos de idade.



O que simboliza essa mudança de status do grupo é o surgimento do Asa Noturna, Dick Grayson em sua versão solo. Ele recicla o nome e um traje usados pelo Superman em uma aventura na cidade engarrafada de Kandor. Sim, você leu que o Superman inspirou o Robin. Na cabeça do Dick, herói é o Homem de Aço, e não o Homem-Morcego. Outra hora conto sobre a volta dele pra Gotham e sua reaproximação do antigo tutor. O passado do Exterminador também é revelado, além do evento traumático que ruiu sua família.


Como boa história adulta que se preze, O Contrato de Judas também termina no cemitério, e no fim deste arco, os Titãs saem do tamanho que merecem ter, resolvendo (ou não) seus próprios problemas, arcando com as consequências e dando adeus à idade da inocência.


Os Titãs na telinha

Devo confessar que não gostei da adaptação do Contrato de Judas em animação, mas gostei bastante do seriado Titans, que lida bem com o processo de amadurecimento e os episódios traumáticos de cada integrante.

Aproveitando pra dar uma dica, temos um episódio do Notas dos Tradutores sobre Titãs, entrevistando Paulo Noriega, tradutor para dublagem e uma das grandes figuras que conhecemos através do podcast. E o Paulo é fã de Teen Titans Go!, versão glicosada e cafeinada do grupo, além de um excelente papo e grande profissional do mercado. É o episódio 11 da primeira temporada, chamado Tradutores Titânicos.




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