• Carlos Henrique Rutz

O DIA EM QUE OS TITÃS SUPERARAM OS BEATLES

Pra começo de conversa, se você acha que esta coluna falará de Mutano, Ravena, Cyborg e Estelar, errou feio, errou rude (mas se chegar até o fim, vai se surpreender).


Os Titãs em questão são:

  • Arnaldo Antunes (vazou)

  • André Jung (partiu)

  • Branco Mello (ficou, pois indestrutível)

  • Charles Gavin (chegou depois e já vazou)

  • Ciro Pessoa (vazou antes do Big Bang e RIP)

  • Marcelo Fromer (RIP)

  • Nando Reis (deu no pé)

  • Paulo Miklos (saltou fora)

  • Tony Bellotto (tá na área)

  • Sérgio Britto (tá na área)

O conjunto paulistano lançou o primeiro elepê em 1984, catorze anos depois do fim dos Beatles. No primeiro disco, Sonífera Ilha e Toda Cor foram as que efetivamente tocaram em rádio, mas acabaram ofuscando outras, como Marvin e Go Back, que não tiveram a atenção devida, mas foram regravadas anos depois e viraram hits, assim como "Querem Meu Sangue", versão da música "The Harder They Come", do Jimmy Cliff, que virou hit na mão do Cidade Negra.


Aliás, fazer versão era mato naquele início dos anos 1980. Léo Jaime regravou "So Lonely", do The Police, como "Solange" (sim!), Lulu Santos pegou "Get Back" dos Beatles e transformou em "De Leve" (eita!), anos depois de Roberto Carlos ter passado o rodo nos brotos com a versão de "Road Hog" , rebatizada simpaticamente como "O Calhambeque" (seu cérebro fez bip, bip, não fez?).


E, nesse mesmo disco de estreia do então octeto, há uma versão em português de "The Ballad of John and Yoko", com título literalmente traduzido "A Balada de John e Yoko", que dissecaremos (não literalmente) nesta coluna.




Ah, mas isso não é gibi, vim no lugar errado!


Calma, jovem. Pausa pra explicações:


Hoje, quando se critica tradução, inclusive de quadrinhos, vários argumentos são muito bem embasados e é um direito do leitor / consumidor / colecionador. Erros de digitação, de revisão, balões trocados, coisas que efetivamente acontecem e todos os profissionais envolvidos lutam bastante pra que não se repitam.


Tratamos bastante disso lá no podcast que tenho ao lado do decano Mario Luiz C. Barroso e do célebre e onipresente Érico Assis, chamado Notas dos Tradutores (hospedado também aqui neste site, mas disponível nos maiores agregadores do ramo).


Porém, um ponto bastante usual nas críticas é: "Não está como no original". É comum que a base pra esse tipo de crítica seja uma paixão pela tradução feita com dicionários ou com a ajuda de uma ferramenta importante, mas injusta: o Google Translate (doravante mencionado aqui apenas como GT).


Nem sempre a versão do GT exprime exatamente a intenção do original, o tom da fala, etc. É compreensível, pois a gente mora num país com 5% de falantes razoáveis de inglês, e apenas 1% pode ser enquadrado como fluente.


Mas aqui é ousadia e alegria. Se temos 216 milhões de técnicos de futebol, alcançamos facilmente 32 bilhões de tradutores de quadrinhos (número aproximado), então não há nada que impeça aquela cornetada embasada em absolutamente nada além de achismo.


Voltando à programação normal:

A Balada de John e Yoko


Pra esta coluna de hoje, proponho um exercício com 3 versões da mesma música. Em vermelho, a versão original, de Lennon/McCartney.

No centro, a versão GT.

Em azul, a versão titânica, assinada por Sérgio Britto, que há de ler este texto.


Pega uma cerveja e vem com o tio. Mas venham com espíritos desarmados.

Links pras duas versões da música no fim do post.




De cara, a versão dos Titãs faz o que se chama de localização, trazendo a narrativa pra geografia local.

Sim, barcos saem do Porto de Southampton para Holanda e França.

É praticamente uma balsa. Alô, Niterói!

Mas... os de Santos vão até o Japão (why not?).

Santos é o balneário oficial do paulistano médio, por isso o calção.

Zoeiras à parte, a versão GT tem dois erros grosseiros.

Dock são as docas do porto, e não banco dos réus (que ainda vai aparecer).

Mac é um casaco, como os usados por autoridades portuárias, que proibiram a Yoko de embarcar por falta do visto adequado.

(Precisamos investigar se "Barra Limpa" é homenagem ao Thor dos anos 1960)


O tal do casaco MAC. Sorte que o GT não traduziu pra "dois hambúrgueres, alface..."


Aqui, os Titãs sambam na faixa de pedestres de Abbey Road.

"Cristo, não é biscoito" é um lamento muito, mas muito mais impactante que a versão original e, por consequência, que a GT.



De onde os Titãs tiraram o paraquedas, ninguém sabe, mas é muito melhor que a versão original. Também de pouco adiantaria trazer o Peter Brown pra versão brazuca, que ninguém sabe quem é.


O Pedro Marrom (ué, cês não gostam de tradução ao pé da letra?) era secretário pessoal dos Beatles designado pela gravadora.



Outro refrão avassaladoramente favorável aos egressos do Colégio Equipe.

De que vale a fidelidade, sem garrafa & cachaça rimando?

Aliás, precisamos discutir "fidelidade" na tradução. Um dia, prometo.



Olha nosso amigo GT derrapando no asfalto seco: "The news people" é claramente uma referência à imprensa como um todo, que não deixava John & Yoko em paz. A solução titânica é exemplar: Os jornais, como figura de linguagem, fala de toda a imprensa, mesma intenção do original, que a ferramenta eletrônica nem a tradução literal resolvem. Fora que ir de Paris a Amsterdã é bem mais fácil de avião às sete da manhã (75 minutos) do que dirigindo (6 horas), como propuseram os Beatles.




Aqui, os Titãs aproveitam um refrão pra dar um recado sobre os raios UVA, numa época em que as pessoas passavam coca-cola com urucum no corpo pra se bronzear (pergunta pras tias). Consciência é isso. Tá virando goleada pra banda paulistana.



Sabendo que "caridade" pode envolver entidades ligadas aos joão-de-deus e quetais, os Titãs são muito mais precisos ao recomendar que se dê a roupa velha aos pobres.

Claro que há também um corporativismo em excluir Roupa Nova da doação, pois a banda do finado Paulinho tocava também em festa de rico.


Aqui, a humildade de quem deseja falar com as massas. A Áustria traz poucas referências ao brasileiro assalariado. Talveeeez um bigode, talveeez a Noviça Rebelde.

Assim, os Titãs driblam a geografia como um Garrincha oitentista e dão um cavalo de pau rumo à Península Ibérica. E "touros cheios de manhas" é um libelo contra as touradas. Greta e Luiza Mell aplaudiriam.


A versão GT não tinha como captar, mas "comer chocolate em um saco" era uma referência literal à campanha de John & Yoko contra o julgamento estético das pessoas, e que todos estariam livres se vivessem em um saco. Dois gurus em drag era uma referência às roupas que ambos usavam na virada da década, andróginas e com toques orientais.


Melhor que pelados? Fica o questionamento.



Um refrão com significados obscuros. "Chá não é sopa" pode ser uma das infinidades de chás-lendas urbanas da época: cogumelo, fita, beladona...


À essa altura, o amigo leitor já sacou que o refrão em inglês apenas se repete, não é mesmo? Mais um 7 x 1 dos Titãs em cima do Fab Four.



A Inglaterra se orgulha de Peter Sellers e Monty Python, mas os gênios da comédia não nasceram na capital do Reino Unido. Em compensação, Ronald Golias, o colosso do humor brasileiro nasceu onde?

São Carlos, obviamente. Sérgio Britto foi cirúrgico ao colocar o intérprete de Bronco no lugar de destaque.

Rimar pinel com aluguel também é pra poucos. Ao contrário da versão original, escrita em 1969, os Titãs já sabiam que o casal John & Yoko jamais seria perdoado, devido ao trauma do fim dos Beatles.

Em vez de afagos da imprensa, o banco dos réus. Triste, mas faz mais sentido.

E nosso amigo GT? Escorregou na concordância (um clássico da ferramenta eletrônica). Ah, as tais bolotas (frutos do carvalho) eram levadas para cima e para baixo pelo casal, para serem ofertadas como presente.


As "bolotas da paz" dos pais do Sean.



Com mais peso que a versão original, além de ser muito mais apocalíptica, a letra da versão titânica faz uma amálgama do "Cristo" da interjeição com o próprio filho da dona Maria.

Xeque-Mate.


E qual a conclusão?


Uma surra titânica.

O beatlemaníaco médio já está prenhe de ódio, se é que chegou até aqui.

Mas o "tradutor" Sérgio Britto (que, pelo que me lembro, fez esta versão ainda na adolescência) encontrou soluções de rima, de narrativa, de métrica e de humor pra algo bastante engessado que é uma canção.


E isso é um trabalho muito mais difícil do que simplesmente trocar palavras, como há quem pense que é o trabalho do tradutor.

Suponha que você tenha conhecido apenas a versão dos Titãs. Mesmo que meio louca, ela faz sentido pra você.

A original ia requerer pesquisa, então isso também é traduzir.

Trazer a mensagem decifrada.

Claro, às vezes precisa uma notinha aqui e ali.



Mutano Mello, Ravena Britto e Estelar Bellotto

Traduzir é muito mais do que transpor as palavras de um idioma pro outro. Há muitas nuances, tons de fala, maneirismos intenções explícitas e implícitas. Há poesia, há segundas intenções, sarcasmo, variações de humor.


Em uma mesma família, as pessoas falam de maneira diferente. Por que c*rajos os personagens da ficção têm que falar como um robô, digo, tradutor eletrônico?


Quando se fala de tradução profissional, há um motivo pra se delegar a uma pessoa (um profissional) a versão do texto pra um novo idioma.


Aos colegas tradutores, vocês vão ouvir não uma e nem duas vezes que "qualquer um traduz", que "hoje é só jogar no computador que ele faz tudo". A gente sabe que não é assim.


O leitor também sabe, mas uma parte está ficando mal acostumada, ou por ler de qualquer jeito um scan pra não tomar spoiler, ou consumindo traduções piratas bem esquisitas porque é o espertão. Mesma coisa aconteceu com série e filme.


O troféu de gente assim espertona é um copinho cheio de ketchup refil do méqui, que ele joga no lixo dizendo:

"Rá! Peguei, não comi e joguei no lixo!"

Nossa, o Ronald nem vai dormir depois desse desfalque colossal, trouxão!

São esses que acabam achando que chegar fria e literalmente do ponto A ao ponto B de uma tradução dá um quentinho no coração, pra depois espinafrar quem rebola pra "inventar com o trabalho dos outros".


Como diria Didico: Que Deus Perdoe Essas Pessoas Ruins.






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