• Carlos Henrique Rutz

O DIA EM QUE O TRADUTOR ERROU E VOCÊS TIVERAM UM CHILIQUE


O ano é 1994 e o craque italiano Roberto Baggio isola o último pênalti, dando o tetracampeonato para o Brasil. Era um dos maiores jogadores dos anos 1990, decidindo com o único rival tricampeão do mundo quem seria o primeiro tetra da história. Bem, Galvão Bueno violou nossos tímpanos com seu desafinado, eterno e inigualável "É tetraaaa" e o resto é história. O erro marcou pra sempre o italiano, mas não apagou o craque que ele era.

"Nossa, mas você tá dizendo que todo tradutor é craque?" A resposta é não.

Mas craque também erra.

E o tradutor erra, seja ele craque ou não.

O editor erra.

O letrista erra.

O revisor erra. A gráfica erra.

Quem lê também erra.

Ninguém quer errar e os profissionais são pagos pra não errar. Quem consome, tem o direito de ter o material livre de erros.

Mas acho melhor a gente definir logo de que erros estamos falando.


O escorregão

Shit happens. Se há uma mínima chance de algo dar errado, dará (oi, Murphy!).

Pra um erro de digitação, concordância ou gramática, o corretor do Word geralmente serve como anteparo.

Daqui, duas coisas podem dar errado:

a) os envolvidos com o texto, por pressa, descuido ou autoconfiança, não usarem o corretor

b) o olho humano

Geralmente, quem escreve não deveria revisar nem editar sozinho.

O olho humano trai e o cérebro tende a "consertar" as coisas porque a ideia está "certa" na sua cabeça. Distribuir tarefas entre pessoas diferentes é um sistema que minimiza erros, mas não é 100% eficaz, pois... humano.


Já errei:

  • com razoável frequência digito QUATRO reticências

  • a fim e afim são quase invisíveis ao olho humano, embora a diferença seja clara

  • por + que e suas variações

  • hífen em nomes de animais uma cadela preta é um cão fêmea na cor preta, mas viúva-negra é uma espécie de aranha

  • concordância quando tem "a maioria dos...", que fecha com singular, e não pural.


A opção errada

Quem coordena os trabalhos de uma publicação é quem a edita, e a comunicação com quem traduz tem que ser fluente, ou pelo menos deveria. Por exemplo, se aparece um bandido com um canivete na mão em um beco de Metrópolis, e o balão de fala aponta para um grito, dificilmente o que ele está dizendo é: "Meu senhor, com licença, pode me passar seu dinheiro?". Bem mais provável é uma fala como: "Passa a grana aí, rapá!" Mas, se o tradutor se arriscar com: "Dá o dinheiro, f*lho da p*ta, senão eu vou f*der com a p*rra tua vida!" e o editor não se atentar, pode ser uma opção bem errada pra um gibi do Superman, que geralmente não traz esse tipo de linguagem. A mesma coisa acontece com termos que algumas editoras já aboliram, como chamar uma mulher de p*ranha gratuitamente ou termos como "rabo", "bicha", etc...

Em uma publicação infantil, usar um vocabulário pesado ou construções de frase complexas pode afastar a criança que está lendo. É importante estar atento aos personagens e seus modos de falar, mas também pensar no público a quem o material é dirigido.

As diretrizes pra cada trabalho ou pra cada linha editorial deveriam ser sempre conversadas no início da jornada ou ajustadas o quanto antes. Um trabalho que foi feito "solto" ao longo de centenas de páginas tende a trazer mais erros do que o possível pro escrutínio de quem edita.


Já errei:

  • já usei memes que ficaram datados cedo demais, crente que seriam boas piadas

  • usei "fresco", "frescura" e outros termos que não têm mais espaço

  • nas minhas primeiras traduções, tinha muito pronome oblíquo, e eram voltadas pra crianças, o que tornava o texto pouco atrativo.



O erro em si

Nesta categoria estão erros de conceito que podem vir por desatenção grave, preguiça de pesquisar ou chute. Aqui, geralmente estão os erros mais graves e que mais incomodam os leitores.

Por exemplo, em um diálogo da Canário Negro com o Arqueiro Verde, ela chamar Oliver Queen de Lanterna.

Faz parte disso uma tradução de "She looks like me" como "Ela olha como eu", ao invés de "Ela se parece comigo".

Aqui também se encaixa a não-consulta às famosas listas e glossários de cada "universo". A Marvel tem as suas, a DC também, Star Wars idem... E tem que consultar, sem confiar na memória. São milhares de personagens, milhares de nomes e muitos mudaram ao longo dos anos.

Traduzir tem suas responsabilidades, e quem traduz tem de levar seu trabalho a sério. O trabalho de consultar, pesquisar e reescrever é muito maior do que apenas digitar o texto em outro idioma. Se calhar pra quem edita ter de refazer essas etapas ou se os indivíduos envolvidos no processo não confiarem uns nos outros, a cadeia de trabalho se torna pesada e geralmente o editor paga esse preço, nem sempre de maneira justa.


Já errei:

  • havia uma frase (the seeds grow into trees) que significa "as sementes tornam-se árvores". Na pressa, eu disse que as sementes cresciam dentro dos troncos, pois era sobre esquilos.

  • já batizei o Lanterna de Arqueiro.

  • já traduzi suit como "traje", quando era "destacamento"


A crítica aos erros

Se alguém disser que gosta de receber críticas negativas, é um espírito muito elevado e está de parabéns. O que não quer dizer que a gente não aceite o erro ou mesmo discorde. Geralmente, a sensação é de susto. Ou ficar na defensiva. Quando essa crítica é feita em público, a defesa é muito difícil, pois em muitas vezes pode significar apontar o dedo pra outro profissional. Melhor ficar calado. Hoje existem páginas e perfis em redes sociais especializados em apontar erros encontrados em publicações de quadrinhos. Eles cumprem uma função e apontam muitos erros que passaram nas publicações. O importante é despersonalizar a crítica. Nem sempre o nome creditado na tradução é a pessoa que cometeu o erro. Alguns pontos também nem sempre são levados em consideração. Por exemplo, o "DeLorean Moral", que já citei em outra coluna. O material pode ter sido lançado em 2021, mas o texto republicado veio de 1999 e ninguém o atualizou. 22 anos depois, somos uma outra sociedade, com outro vocabulário e outros valores. A empresa deveria orientar quem editou para uma atualização do texto ou mesmo uma retradução. Culpar aqui quem traduziu é um erro. O ideal seria que todos conhecessem o processo de produção de um quadrinho, pra entender de onde pode ter vindo o erro. Hoje em dia, vários canais e perfis já entrevistaram muitos tradutores, editores e gente do mercado, e os processos já estão mais "popularizados".


Já aconteceu:

  • apareci no "Todo dia..."

  • em um de meus primeiros trabalhos, tinha um erro que foi gerado em uma etapa posterior à minha tradução, mas foi meu nome que cornetaram no "site" twitter

  • duas traduções minhas (que podem ser ser chamadas de erros, sim) aparecem no workshop de edição do Sidney Gusman.

Quando o leitor erra

Muitas vezes, scans são a forma mais rápida de se ter acesso a algum material importado. Quando não sabe inglês, o leitor (ou mesmo tradutores "piratas") apelam a tradutores eletrônicos ou dicionários, e isso o habitua com a tradução mais "fria", preocupada com a precisão da palavra escrita, preterindo a linguagem falada, que é o que os quadrinhos mais trazem. Aí, quando pega um texto traduzido profissionalmente, tende a rejeitar qualquer opção que não seja aquilo que diz o dicionário. Um belo jantar no Brasil é recebido com "Isso tá com uma cara boa!"; nos EUA: "It looks great!". O leitor assim habituado tende a achar que o "certo" seria colocar: "Parece ótimo!", que está correto, a não ser por um detalhe: em geral, falamos mais "cara boa" do que "parece ótimo". Ler "mal" acostuma a gente e baixa os critérios de exigência. Não podemos esquecer que, embora escritos, o que tem dentro dos balões são falas.


Isso quer dizer que a pessoa que lê não pode ter opinião? Claro que pode e deve, afinal, é quem consome e, num mercado que cada vez mais depende de clientes fiéis, é importante que se ouça e se encontre mecanismos visando eliminar os erros pra entregar um produto final cada vez melhor. E nós, profissionais do mercado, também somos leitores e consumidores. Ninguém vai "levantar bandeira" contra o leitor.


Já aconteceu:

  • leitor reclamou da pontuação, apontando o tradutor, mas era manual de redação da editora

  • leitor ameaçou meter processo porque duas palavras corriqueiras apareceram juntas e ele achou que seria uma ofensa ao ídolo político dele

  • leitor puxar assunto achando que muita coisa devia ser "deixada em inglês" porque hoje "todo mundo fala". Contei que o Brasil ia além da guarita do condomínio.


Como parar de errar?

O ideal é que cada processo tenha o tempo necessário pra ser bem feito. A pressa é a mãe da cagada (o pai é a autoconfiança). Mas são tantos fatores envolvidos que nem sempre esse tempo existe. Editores com mais quilometragem já sabem identificar os pontos frágeis da produção e que precisam de reforços. Geralmente, distribuir as tarefas e também um certo nível de redundância (mais de uma pessoa olhando as etapas, quando possível) contando com pessoas diferentes ajuda a minimizar. Algumas editoras sobrecarregam editores com um volume surreal de publicações/mês. Comunicação ágil e precisa também é fundamental. E-mails que levam semanas pra serem respondidos ou mensagens sem confirmação de resposta contribuem pro caos. Ler em voz alta ajuda o tradutor a perceber se aquilo "soa" bem, mais do que "parece correto" no papel ou na tela do computador. Durante o letreiramento, também podem ser identificados erros, e é bom que este profissional também tenha fácil acesso aos responsáveis pelas demais etapas para fazer o alerta e propor soluções.


E que atire a primeira pedra quem nunca errou.

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