• Carlos Henrique Rutz

O DIA EM QUE O FANTASMA DEIXOU UM LEGADO, MAS NENHUMA HERANÇA

Já falei aqui do Batman e do Superman, e de como o azulão batiza sap*rra de negócio chamado super-herói.

Também discutimos que há um motivo para o Batman falar como fala. Hoje é dia de falar de um outro herói que mora em uma caverna, muito antes de Thomas e Martha Wayne tomarem seus pipocos no beco do crime.

Hoje é dia de falar de um outro herói que encontrou uma maneira de apavorar a rapaziada, mesmo sem ter superpoderes.

Hoje é dia de falar de um habitante do continente africano, mas sem vibranium nem traquitanas wakandanas.

Hoje é dia de falar do Espirito-Que-Anda, d'Aquele Que Não Pode Morrer, Kit Walker, O Fantasma.



Criado em 1936, nosso mascarado é filho de um marinheiro que foi morto por piratas e mora na fictícia Bangalla, nação africana (anteriormente sul-asiática) cheia dos mistérios de um continente explorado, usado e abusado por europeus cheios de amor pra dar (sqn).

Diante do corpo do assassino de seu pai, ele jura lutar contra o mal.

E quem é o mal? Piratas, ladrões, traficantes e qualquer criatura de péssima índole que mexesse com o meninão de roxo, seus protegidos pigmeus, sua floresta selvagem e os animais que lá habitam.


Morto, mas onipresente

O Fantasma rapidinho virou programa de rádio, seriado de cinema, a tira invadiu centenas de jornais e passou a ser publicado na Ace Comics, e logo depois ganhou título próprio, publicado pela editora Harvey Comics, e depois pela King, Charlton e as duas que o jovem de hoje sabe que existem. Elas mesmas, Marvel, a que não tem clássicos e DC, que faz filmes sem defeitos.

Diana Palmer, mulherão da p*rra

Se teve uma personagem em que o criador Lee Falk investiu fichas, foi no par romântico do herói. Diana Palmer tem treinamento em enfermagem, medalha olímpica, faixa preta de caratê e, dependendo da versão, um emprego na ONU e um PhD.





Traduzi o Fantasma e não foi gibi

Desde 1936, mesmo ano de lançamento da tira, começaram a publicar também livros do herói. O livro que traduzi foi A Ameaça de Scorpia, para a editora Mythos. Originalmente, saiu pela Avon Publications, editora que produz livros em papel barato, chamados "dime novels", publicações pequenas e baratas pra serem vendidos em bancas ou por ambulantes. Dime é a moeda americana de dez centavos (pelo câmbio de hoje, dá pra ir à Disney de primeira classe).


O livro de Basil Cooper estende um argumento que já havia sido publicado em quadrinhos, e o Fantasma vai aos EUA quando chegam as notícias de que Diana havia sido sequestrada enquanto pesquisava sobre a Scorpia, organização criminosa centenária de contrabandistas e assassinos. Foi meu primeiro romance traduzido, e algumas características são bem difíceis de se adaptar, comparando com o gibi nosso de cada dia.

Por exemplo, se o Batman entra numa sala com assoalho de madeira, a imagem mostra.

Em um livro, pra imergir o leitor, é necessário algo do tipo: "E, ao entrar na sala de cerca de 25m², o herói pisa no assoalho de mogno marrom-avermelhado, com rodapés mais claros e paredes com papel estampado com rosas e crisântemos em alto-relevo. As janelas são de carvalho, enceradas para disfarçar a idade, e as cortinas púrpura lembram uma carruagem do século XIX em direção a Brighton."

Isso é algo a que já me acostumei, pois já passei dos dez livros traduzidos, entre fantasia, romances históricos e aventura. Mas, no começo, muito difícil. E como fala o Fantasma? Como o Batman. Simples assim.

Voltando à história, é um livro bem bacana, de leitura fácil e com narrativa bastante dinâmica, com cortes de cenas que facilmente se converteriam em um bom filme para o cinema. O autor tenta ligar a ficção a fatos históricos e o Fantasma usa todos os seus talentos contra o vilão, o temível Barão Sojin, e seus lacaios. Quem falou sobre o livro foi o canal Fantasma Brasil no youtube (link no fim do post). Aliás, excelente fonte sobre o nosso herói de hoje.

Falando em cinema, o filme do diretor Simon Wincer, estrelado por Billy Zane em 1996 merece uma visita. Tem um climão de filme antigo, clássico. Se o Zack Snyder pega, faz uma versão em P&B maneira.


A não-herança

Desde muito novo, eu ouvia histórias do Fantasma, do seu lobo Capeto (baita batismo!) e do cavalo Herói, as lutas violentas, os tiros precisos e os animais ferozes que eram sua legião. Aliás, por um erro de gráfica, o Fantasma aqui no Brasil era vermelho, e não roxo.

Uma das coisas que sustentam a mitologia do Fantasma é que ele treina o próprio filho pra assumir o manto. Assim, as pessoas achavam que o Fantasma era o mesmo homem desde o século XVII, o que deu a ele o status de lenda. Pelo mesmo motivo, sua Caverna da Caveira era impenetrável.


Esse era o legado do Fantasma, que seria defendido por seus descendentes através dos séculos, sobrevivendo como mais uma das belas lendas da tradição oral do continente africano.


Isso permitiu um "multiverso" do Fantasma, e há versões em tempos atuais, no passado, no futuro e o que mais um roteirista quiser. Terreno pra criatividade, tem bastante.

Não podemos esquecer do clássico desenho SBTista "Os Defensores da Terra", estrelados pelos heróis Fantasma, Flash Gordon, Mandrake e Lothar, mas com seus filhos adolescentes lutando a seu lado. Nessa versão, o Fantasma invocava "Pela lei da selva, eu evocarei a força dos dez tigres" e ganhava poderes sobre-humanos, algo que não havia na HQ original.


Sobre a herança que não recebi, o que aconteceu foi que, na infância, meu pai era colecionador de gibis, principalmente do Espírito Que Anda. Ele quem sustentou o legado do Fantasma pra mim, contando as histórias, narrando os atos de bravura e despudoradamente matando os bandidos na narrativa. Mas salvando os pigmeus, os bichos e tudo mais.


Mas, como criatura desprovida de ambição, bom senso e péssimo negociador, trocou (perdeu?) toda essa herança física (os inúmeros gibis) por uma maria-mole e três paçocas. Assim, todas as lendas do Fantasma que me foram transmitidas, vieram oralmente, com meu pai servindo de griô (griôs eram os contadores de história da África Ocidental) pro Kit Walker. Contudo, sem um gibizinho sequer pra pesar na prateleira. Só a lenda.


Assim, em algum lugar da Palhoça natal de papai jazem as revistas que seriam minha herança, mas acabaram permanecendo, como a maioria das lendas africanas, uma bela e importante tradição de belas histórias faladas, ainda que infelizmente nos tenham levado o que havia de material e seria, por direito, nosso.


A Ameaça de Scorpia no canal Fantasma Brasil:

https://www.youtube.com/watch?v=gJHnCMOsTdQ&t=29s


Os Defensores da Terra (dublado):

https://www.youtube.com/watch?v=pyPlI_-15UU&t=1041s


Trailer do filme de 1996:

https://www.youtube.com/watch?v=ylMVvzQrrII


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