• Carlos Henrique Rutz

O DIA EM QUE O DOUTOR ESTRANHO ENTROU NO PINK FLOYD... E VICE-VERSA


O roquenrou desde sempre foi fã de uma teoria da conspiração. Paul McCartney morreu e foi substituído por um sósia, ao contrário do Elvis, agente da CIA que tá na Argentina vivinho da silva. Na virada dos anos 1960 pros 1970, a psicodelia já tinha feito suas vítimas e as lendas urbanas se espalhavam em profusão. Uma delas dava conta de que o Pink Floyd recebia suas letras de alienígenas e que a banda tirava sons estranhos dos instrumentos por terem acesso à tecnologias de outras civilizações. Claramente, era uma época em que as drogas não eram batizadas. O fato é que sim, o Pink Floyd desenvolveu alguns aparatos técnicos, desde sintetizadores até alto-falantes e estrutura de palco, que são patenteados pelos engenheiros que trabalhavam com a banda.

Quadrinhos psicodélicos

E onde a psicodelia entrava nos quadrinhos? Rá! Doutor Stephen Strange, a.k.a. Doutor Estranho, era pura doideira alucinógena nas páginas dos gibis. Stan Lee e Steve Ditko mamaram (no sentido lácteo) nas mitologias egípcias, nos deuses sumérios e na arte de Salvador Dali pra fazer daquelas hqs uma experiência única. É lógico que acusaram a dupla de fazer uso de alucinógenos, o que negaram. Mas é importante lembrar que naquela época o uso de alucinógenos de maneira recreativa não era criminalizada como é hoje. Era visto como uma aventura, e infelizmente os perigos e alertas vieram ao custo de algumas vítimas.


O membros do Pink Floyd eram notórios consumidores de quadrinhos, e a banda já ganhou uma coluna aqui (e tem mais pra vir). No disco de estreia da banda, já há uma menção ao aventureiro espacial Dan Dare na música "Astronomy Domine". O personagem do ilustrador Frank Hampson era uma das menções literárias da canção de Syd Barrett, ao lado de... Shakespeare.



Parece pires, mas é disco voador

Quando Barrett deixou o grupo, durante as gravações do segundo disco, "A Saucerful of Secrets", lançado em junho de 1968, houve um vácuo, pois a banda perdera o principal vocalista, guitarrista e compositor. Já com David Gilmour, a banda terminou as faixas do disco e, pra compensar a falta do antigo compositor, esticou alguns solos e completou com faixas instrumentais.



A capa, pela primeira vez, ficou a cargo do hoje lendário estúdio Hipgnosis, que à época estava começando. Storm Thorgerson, designer e amigo da banda, foi quem fez praticamente todas as capas da banda, além de muitas outras para artistas como AC/DC. Led Zeppelin, Paul McCartney e Genesis, entre outros. O nome do disco, e de uma das faixas instrumentais do álbum "A Saucerful of Secrets" é algo como "Um Pires de Segredos", só que não. Disco voador em inglês é flying saucer. Viram por que acusavam a banda de pactos alienígenas?


E cadê o Doutor Estranho ali, gente?

A inspiração da capa veio desse conceito de algo cheio de segredos, e ela é uma colagem de transparências sobrepostas onde há referências religiosas, fotos da banda, texturas e... uma página do Dr. Estranho. A revista é Strange Tales 158, e na segunda história temos o Doutor sendo apresentado à possibilidade de enxergar não apenas a criação do planeta Terra, mas também sua destruição. É uma página magnífica, com desenhos de Marie Severin, arte-final de Herb Trimpe e roteiro de Roy Thomas.






Há uma segunda menção ao Doutor Estranho na obra do Pink Floyd, quando ele é citado nominalmente na música "Cymbaline", que saiu no disco (na verdade, trilha sonora pro filme de mesmo nome) More. O curioso é que a música, enquanto estava sendo composta, era chamada provisoriamente de "Nightmare" (pesadelo), justamente o primeiro inimigo que o Dr. Estranho enfrentou em sua estreia, em Strange Tales 110. O trecho é o seguinte "And suddenly it strikes you / That they're moving into range / Doctor Strange is always changing size".



Com o filme, novas citações

Em 2016, a Marvel lança o filme do Doutor Estranho, trazendo uma vontade imensa de colocar na tela um pouco daquela loucura dos anos 1960, mas com toda a tecnologia disponível do século 21. Quem estrela o filme é Benedict Cumberbatch, ninguém menos que Sherlock Holmes, na versão da BBC (2010-2017). E alguém lá dentro manja de referências, porque escolheu nada menos que a cena do acidente de carro que faz o estrago nas mãos do médico Stephen Strange pra inserir Interstellar Overdrive, música instrumental que abre o lado 2 do disco The Piper at the Gates of Dawn.

Assista aqui à cena do acidente:

https://www.youtube.com/watch?v=1RhTKc1r6s4



Além disso, quando Strange está se recuperando, deprimido por não poder trabalhar e pela ruína de seu relacionamento, ele aparece vestindo uma camiseta com a capa do primeiro disco solo de Syd Barrett, The Madcap Laughs.

Cumberbatch, protagonista do filme, é grande fã de Pink Floyd, e aceitou o convite de David Gilmour pra cantar Comfortably Numb junto com o guitarrista da banda. Na verdade, ele faz apenas a parte falada da música, e erra. Eu também erraria, num palco daquele tamanho e com o Gilmour do meu lado. De qualquer jeito, posto o vídeo aqui pra vocês:

https://www.youtube.com/watch?v=FaaoTvEdKtA

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