• Carlos Henrique Rutz

O DIA EM QUE ME CONVENCI DE QUE O BATMAN TEM UM BORDÃO

Atualizado: Out 21


Como toda família que se preze, a dos batmaníacos também tem seu quinhão de negacionistas. Não que sejam daquele tipo de gente que acredita que pode sair música boa de um disco dos Los Hermanos ou do Coldplay, longe disso.

Mas é gente muito purista, que renega Adam West, ignora as pantufas do Sr. Frio e finge que Nolan nunca errou na vida.

Os mesmos que vão lançar hate nesta humilde coluna.


Pra desespero dessa galera, assim como Super-Homem fazia a meninada saltar na grama gritando "Pro alto, e avante!", Zan e Jayna embalavam nosso cereal matinal gritando "Supergêmeos, ativar!", e Ronald Golias invadia nossos lares com "Ô Cridê, fala pra mãe!", o Homem-Morcego, a.k.a. Guardião de Gotham, a.k.a. Cruzado Encapuzado, a.k.a. Maior Detetive do Mundo (arrepiou aí também?) também tem um bordão.


Mas, antes de chegarmos no estribilho do tutor de Dick Grayson, cabe uma explicação:

Como o Batman fala e por que ele fala assim?

Filho único de família abastada, o menino Bruce Wayne tinha pais bilionários com aura de comercial de margarina, e todos moravam alegres a saltitar em uma propriedade gigantesca, chamada Mansão Wayne (ah, vá!), isso quando não estavam viajando o mundo em um dos aviões ou iates da família.


Bruce foi criado com o que podia haver de melhor, colégio topzeira, acesso a todo tipo de informação, livros, viagens, museus e o que mais o dinheiro pudesse adquirir à vista, porque crediário é coisa de Jonathan Kent comprando trator.


Era um menino culto, educado, bem-formado e... sem muitos amiguíneos da mesma idade. Ou seja, já falava como velho antes mesmo de trocar os dentes de leite.

Até que, depois de uma certa sessão de cinema, um certo evento por causa de um certo colar de pérolas que estava no pescoço errado, na hora errada e no beco errado, a família foi reduzida em 66,6% (uuuh...) e o rapazola se viu sozinho.

Só que não.


Mesmo com o conselho das Empresas Wayne de olho no espólio, a guarda do garoto bilionário ficou com o mordomo da família, Alfred Pennyworth, britânico, inteligentíssimo e com o passado mais cheio de eventos que um Snydercut do Forrest Gump.


Assim, além de culto, de falar com um velho e não ter amigos, Bruce foi um adolescente p*taço, sem pai nem mãe (literalmente), e com a educação entregue a um idoso habituado a citar poetas e pensadores enquanto sutura um supercílio, extrai um molar ou efetua uma transfusão de sangue à meia-luz em uma caverna cheia de morcegos e bugigangas caríssimas.


Acabou? Não. Já mais velho, o filho do seu Thomas e da dona Maaaartha viu que as próprias empresas da família estavam envoltas em sujeira, assim como toda a cidade, desde a corrupção da polícia e dos políticos até a máfia tocada por famílias poderosas.

Temos agora um Bruce Wayne culto, que fala como velho, sem amigos, p*taço, órfão, criado por um idoso inglês e re-vol-ta-do com a cidade da qual era o filho mais querido.


Assim chegamos ao Batman que conhecemos.

Sem papinho.

Sem rodeios, sem risadinha.

Sem muita negociação.

Direto ao assunto.

O cara que quer ser obedecido, porque sempre tem um plano.

(que, aliás, raramente explica)

Grosso, até.

O Clint Eastwood em Dirty Harry.


Como esquecer do início de Liga da Justiça Internacional (1987), quando o Senhor Destino quer usar seus poderes sobrenaturais pra resolver um quebra-pau dentro da Liga, provocado por Guy Gardner (a.k.a. O Lanterna Verde PNC) , mas ouve do Batman apenas um:

– Não. Deixe comigo.

E, durante três quadros, com perfeito timing, todos os envolvidos vão se aquietando, boquiabertos, até que o morcegão dono da p*rra toda chega no Guy e diz apenas:

– Guy? Quieto.

Sem sermão, sem se explicar, sem dar satisfação pra maluco nenhum. Ele apenas é o Batman, cazzo!


Não vou entrar aqui nos Batmen muito endêmicos ou específicos, mas o fato é que esse Batman de pH muito baixo (ácido, pra quem não manja dos paranauês da química) é que norteia seus editores, tradutores, com raras modificações.


Agora, se você chegou até aqui pra saber qual é o bordão do Maior Detetive do Mundo, imagine você ter de lidar com:


- o mordomo grandiloquente de sempre

- o pupilo adolescente da vez

- uma cidade que não apenas não dorme, mas também não deixa ninguém dormir

- vilões espalhafatosos, que sempre explicam os planos nos mínimos detalhes e levantam teorias malucas pra fundamentar seus atos


Nessas condições, e com dinheiro o suficiente pra não ouvir o que não se está afim, tanto você, quanto eu ou Bruce Wayne, só teríamos uma palavra a dizer:


– Chega!



P.S.: Para mais informações sobre como fala cada personagem dos quadrinhos, recomendo especialmente o episódio 004 da primeira temporada do Podcast Notas dos Tradutores, que eu toco junto com o Érico Assis e o Mario Luiz C. Barroso. O episódio se chama Teorema do Quarteto.


P.S. 2: A tradução citada pra LJI saiu assim na edição 72 da Coleção de Graphic Novels da Eaglmoss.

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