• Carlos Henrique Rutz

O DIA EM QUE DESCOBRI QUE PODEMOS VOAR

Não sei se todos sabem (audiência rotativa, tão ligados?), mas nós, que trabalhamos com quadrinhos, não nascemos fazendo isso. Uns eram crianças que desenhavam sem muito talento, mas algum incentivo. Outros eram colecionadores inveterados, e outros apenas liam.

Eu lia. Muito.

E depressa.

O tempo todo. Quando acabaram os gibis, eu li os livros infanto-juvenis. Quando acabaram os infanto-juvenis, eu li os livros adultos.

Achava o máximo ter palavrão nos livros do Jorge Amado, mesmo tendo 8 anos. Ficava meio perdido com as narrativas picantes nos Sidney Sheldon.

Quando terminei os livros adultos, eu li as enciclopédias da casa.

Todas.

E os dicionários. Todos. E se eu visitasse sua casa, eu leria também as suas enciclopédias, depois que acabassem os gibis e os livros, as Super Interessantes, as Vejas e as Quatro Rodas.

Ler rápido me facilitou algumas coisas. Devolvo rapidamente (e intactos) os livros e gibis que me emprestarem.

Conto isso em outro post, mas passei uma temporada frequentando diariamente a Gibiteca de Curitiba. Muito provavelmente conseguia ler cerca de 100 gibis numa tarde.

E foram várias tardes.


O Super-Homem Christopher Reeve





O fato é que o menino-leitor Carlos Henrique era fascinado pelo Superman.

Mais que isso, pelo Christopher Reeve como Superman.

Aliás, Super-Homem, porque sim.

A imagem do bom-moço, o ator perfeito pro papel.

E eu podia ter na minha casa, uma revista com histórias sobre aquele moço que voa, que salva a gata e o helicóptero, mas que era infinitamente mais Super-Homem que o das revistas. Em todos os aspectos.

Tinha uma voz, tinha os trejeitos atrapalhados quando se disfarçava (muito bem) como Clark Kent. Tinha o ator definitivo. Do filme definitivo. Com a trilha definitiva. E tinha o "voo" perfeito, pois, como piloto de planador e ator dos palcos, ele sabia como o corpo se comportaria em relação à aerodinâmica e à gravidade. Reparem nos pousos e decolagens do azulão no filme de 1978. Lindeza pura.


E cai na minha mão... Superman / Batman: Supergirl



Eis que a Terra gira (não ao contrário), e muitas rotações e translações depois, eu passo a trabalhar com quadrinhos de herói, e acabo traduzindo um volume muito especial pra Coleção de Graphic Novels da Eaglemoss: SUPERMAN / BATMAN: SUPERGIRL.

Um reboot da história de Kara Zor-El, prima do Kal que ficou em animação suspensa após a fuga de Krypton. O roteiro de Jeph Loeb é muito bom. Diálogos bem dosados, humor afiado e personalidades muito bem definidas. A arte de Michael Turner é linda, mas polêmica.

As mulheres estão sempre em posição mega-hiper-ultrassexualizadas e, em teoria, a Kara tem 16 anos. Pois é. As mulheres deste volume em geral são representadas em poses e com anatomia... hã... evidente.

Mas isso também é assunto pra outro post futuro, mas separei algumas pro leitor ter uma ideia. Lembrando que a hq original é de 2004, e essa estética era predominante nos quadrinhos mainstream.



Dado curioso é que esta foi uma das primeiras hqs que traduzi dividindo créditos com Hélcio de Carvalho, lenda da tradução desde as priscas eras da Abril e CEO da Editora Mythos. Em outras palavras, o chefe. Ele fez a adaptação do meu texto. Sim, adrenalina. É uma hq bem legal, teve reimpressão recente na mesma coleção da Eaglemoss.

O resumão é: o Super fica felizão porque tem um parente vivo. O Batman não acredita que ela seja de verdade e... treta.

Eles entram em acordo com a Mulher-Maravilha e mandam a Kara treinar com as Amazonas (e ser analisada/vigiada por elas). Taí um gibi que recomendo muito.


Enfim, o "Easter Egg"



Mas, o que me fez citar esse gibi em especial foi o último quadro da úlltima página. É quando se revela uma inscrição que havia na espaçonave que trouxe a Supergirl.

"ESTA NAVE CARREGA MINHA FILHA, KARA ZOR-EL, DO AGORA EXTINTO PLANETA KRYPTON. TRATE-A COMO SE FOSSE SUA PRÓPRIA FILHA, E VOCÊ VERÁ O TESOURO QUE ELA SERÁ PARA O SEU MUNDO."


Em seguida, vem uma dedicatória:


DEDICADO COM TODO AMOR E TODA ADMIRAÇÃO À MEMÓRIA DE CHRISTOPHER REEVE.



Foi a primeira vez que eu tive a plena consciência de que eu agora estava trabalhando no mesmo universo em que eu cresci, e vi que passei a decidir como o Superman falaria a frase tal. De certo modo, a voz do Christopher Reeve agora me obedecia.


Naquele dia, ao traduzir uma mera frase escrita por uma equipe lá dos EUA, que ficou tocada com a morte do Reeve, eu me vi fazendo algo que naturalmente tinha vontade de fazer. As coincidências da vida.


O Multiverso dos quadrinhos não abrange apenas dimensões diferentes da ficção. Ele também abriga terráqueos que nunca se viram, mas compartilham sentimentos parecidos. Super-heróis fazem isso. Seja na telona, na tevê ou no gibi.

Recentemente, tivemos outros exemplos de como esse impacto acontece. Peguem um lenço e vejam os vídeos dos fãs-mirins conhecendo a Mulher-Maravilha Gal Gadot e o Pantera Negra Chadwick Boseman.

Pra várias gerações, o Christopher Reeve foi o símbolo maior, personificando o maior dos heróis. Uma das histórias mais bonitas é a da amizade dele com Robin Williams. Há depoimentos incríveis do Robin contando como ele costumava visitar o Chris no hospital e como foi fundamental na recuperação do amigo e ex-colega de quarto nos tempos de faculdade. Pra quem não se lembra, em um acidente com seu cavalo em 1995, o ator ficou tetraplégico. Nas palavras de Glenn Close, também contemporânea de ambos na universidade, se Chris estivesse vivo, teria feito o mesmo por Robin quando este passou por apuros. Infelizmente, Reeve teve um infarto em consequência de uma infecção generalizada e faleceu em 2004. Dez anos depois, Robin deu fim à própria vida, enquanto lutava contra uma depressão.



Reeve soube ser um super-herói na vida real, e se tornou um ativista pelos estudos com células-tronco, interferindo junto aos planos de saúde e órgãos governamentais por sua liberação. Graças a seus esforços, muitos avanços foram possíveis e hoje são inquestionáveis, ganhando cada vez mais terreno terapêutico.


Minha chance de homenagear Christopher Reeve


Em 2018, haveria uma exposição em Floripa sobre os 80 anos do Superman. Foram encomendados vários textos e ilustrações sobre o Homem de Aço. Até hoje, meu texto para a ocasião estava inédito. E é com ele que encerro o post de hoje.



1978

UM PÔSTER

UM SLOGAN:

“VOCÊ VAI ACREDITAR QUE O HOMEM PODE VOAR”

O MAIOR DOS CLICHÊS: VOAR

NÃO, NÃO ERA BRAVATA

VOAMOS TODOS

HÁ OS QUE FRANZEM A TESTA:

“AQUELE QUE GIRA A TERRA AO CONTRÁRIO?”

COITADOS

TODOS TEMOS FALHAS

A DELES NÃO É NA CALIFÓRNIA

CHRIS NÃO GIROU A TERRA AO CONTRÁRIO PARA SI MESMO

PORÉM

SEM VOAR

NEM ANDAR

FEZ O IMPOSSÍVEL

DESPIDO DO TRAJE E DA CAPA

SUPEROU

O SUPER.




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