• Carlos Henrique Rutz

O DIA EM QUE DESCOBRI O QUE ERA UM RECORDATÓRIO

Quando pensei no nome pra este humilde espaço, me veio à mente Recordatórios, porque cabe bastante coisa dentro dele. Tem a ver com quadrinhos, tem a ver com lembranças e tem várias funções. Então, bora falar sobre ele, o recordatório (a repetição do termo hoje é proposital e quase infinita).


Ainda quando eu estava na minha fase de pequeno gafanhoto e tradutor wannabe, sob a tutela do melhor Obi-Wan Kenobi que alguém poderia desejar, Mario Luiz C. Barroso, este me alertou:

"Carlão, recordatórios são sempre em itálico."

Top. Agora corre pro google ver o que c*rajos são recordatórios.

Asterix Contra os Normandos

Recordatórios são painéis como esse de fundo amarelo, que (principalmente) situa o leitor sobre onde e quando a cena ocorre, quem está envolvido, caso seja a primeira aparição, e dá uma ideia da ação em curso.



Não, eu não sabia que isso tinha nome.

Passei a me achar em um estágio mais adiantado da evolução humana, como as pessoas que olham pra uma faca torta, sem corte e falam "é talher pra peixe" com a empáfia de quem compete em expertise com um neurocirurgião ou cientista espacial.


Em segundos, percebi que quase todo mundo sabia, menos eu.


Geralmente, o recordatório dá voz ao narrador onisciente (alguém que sabe tudo, inclusive como a história termina). Mas os recordatórios são uma ferramenta com diferentes usos pra quem escreve, mas também pra quem edita e/ou traduz.


O Príncipe Valente nos Tempos do Rei Arthur

Hal Foster, por exemplo, nunca gostou de balões disputando espaço com a arte. Assim, todos os textos do Príncipe Valente, inclusive diálogos, eram colocados em painéis sem rabicho, nos cantos ou no rodapé. Os desenhistas que o sucederam ao longo das mais de 80 anos da saga do Príncipe de Thule mantiveram sua opção. Há muitas exceções quanto à posição do texto, mas não há balões.


Recordatórios são mesmo essenciais?

Crise nas Infinitas Terras

Já pensou ter de ler Crise nas Infinitas Terras sem um recordatório pra te dar aquela paz no coração de saber em qual das INFINITAS Terras você está? Cada uma com seu próprio Superman, seu próprio Batman, Flash...



É claro que é preciso dosar, pra não ficar meio chatão ou redundante , mas não se esqueça do seguinte: Se a MONA LISA e a ESTÁTUA DA LIBERDADE têm uma plaquinha explicando o que elas são, não custa dar uma mão pro leitor.


Plaquinha que identifica a Mona Lisa no Louvre

Placa metálica na base da Estátua da Liberdade

Quebrando a quarta parede


Os recordatórios também são um meio pra quem edita (e/ou traduz) se comunicar com a pessoa que está lendo.


Algumas histórias ocorrem ao longo de números diferentes da mesma revista, e alguns pontos precisam ser lembrados pra garantir a compreensão da história.

Às vezes, acontecem em várias revistas simultaneamente, e isso acaba requerendo uma honesta ajuda ao leitor que pertence ao proletariado, que é vítima do sistema, foi abandonado pelo estado, tornou-se presa fácil do capitalismo e relegado à insignificância por estar oprimido nas camadas mais baixas, ou seja, o pobre, sem dinheiro pra levar a banca inteira pra casa.

A Saga da Fênix Negra

Nem todo mundo sabe tudo sobre todos os assuntos, e isso não deveria ser um problema pra quem lê. Uma das missões da tradução é sugerir notas onde o roteiro ou diálogos não deixem as coisas claras pro leitor "médio", que não é especialista em determinado assunto. Mesmo se quem traduziu não fez a sugestão, cabe a quem edita o material detectar esses pontos.


Arqueiro Verde: Os Caçadores

Por exemplo, em Arqueiro Verde: Os Caçadores, de Mike Grell, tradução minha com adaptação do Mario Luiz C. Barroso e edição do Thiago H. Dias, há uma menção a gravatas colombianas quando Oliver Queen ameaça um bandido atrás de informações. O pânico no rosto do cidadão não faria sentido se o leitor não soubesse que "Gravata colombiana é um método de execução da máfia sul-americana que consiste em cortar a garganta da vítima logo abaixo do queixo e puxar a língua para fora através do orifício."

Deus me livre de quem já sabia dessa informação antes da minha humilde notinha. Medo.

Como a gente ainda vai fazer uma coluna (ou mais) falando de notas de tradução (aliás, o episódio de estreia do podcast Notas dos Tradutores foi sobre esse assunto), não vou me estender muito sobre isso. Hoje, não, Cléber.


A aposentadoria dos balões de pensamento?


Um charme do quadrinho raiz é o balão de pensamento, que muita gente ainda usa e longe de mim querer aposentar. Mas, principalmente em quadrinho de herói, os balões de pensamento vêm sendo preteridos e os recordatórios vêm fazendo cada vez mais essa função.


Não que os autores tenham abandonado, mas vem sendo mais frequente. A opção talvez se dê por invadir menos a arte e ser mais fácil de ser manipulado digitalmente.


Alguns autores inclusive mesclam balões de pensamento pra alguns personagens e recordatórios pra outros. O diálogo com a arte é importante, e nem sempre a cabeça da pessoa está em cena pro rabicho do balão apontar pra ela. Os exemplos abaixo vêm da mesma edição de Os Novos 52.


Os Novos 52
Os Novos 52

Em outras mídias


Recordatórios não são exclusividade dos quadrinhos. Livros costumam trazer os seus, antes da mudança de cena, informando onde estamos.

Jovens de outrora como eu têm arrepios na nuca ao ouvir este famoso "recordatório" do desenho dos Superamigos, em forma de vinheta de transição.

Mas, tanto em livros quanto nos quadrinhos, se você puder incorporar no texto as informações que caberiam a um recordatório, a pessoa com o livro em mãos tende a agradecer, pois segue imersa na história sem desviar o olhar.

Ritmo de leitura é importante, p*rra!


O cinema tem muitos recursos pra fazer com que isso ocorra, mas é muito frequente o nome da cidade, o ano, até mesmo a data completa ou o horário (olá, Jack Bauer!) pra manter a audiência ciente do que está se passando.

Isso pode ser chamado de legenda ou letreiro.


Uma boa tomada aérea de Nova York, mostrando a Estátua da Liberdade já é o suficiente pra localizar a plateia, pois é um monumento que só existe lá...


(eu sei o que vocês estão pensando, mas shhhhh!)


E alguns recordatórios, mesmo maravilhosos, dizem tudo sem dizer nada.

Certo, George Lucas?

Se você precisa de legenda pra esta imagem, procure ajuda

E, seja no cinema ou nos quadrinhos, são os recordatórios que nos avisam se a história continua ou se ela chega ao fim, como a coluna de hoje, que o Vento Levou...


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