• Carlos Henrique Rutz

O DIA EM QUE ACIDENTALMENTE DEFINI O QUE FAZ UM TRADUTOR

Se você veio até e nunca ouviu o podcast que eu, o Mario Luiz C. Barroso e o Érico Assis temos, chamado Notas dos Tradutores, sugiro dar uma corridinha no seu agregador preferido ou aqui mesmo no site do CCQ, e ouve um episódio que seja, vai te ajudar no restante deste post.

Mas pode continuar, se quiser.

Mas é mais legal se ouvir. Mas pode continuar, se quiser.

Mas...

Mas, se você já ouviu, percebeu que eu sempre defino o podcast na apresentação e na despedida como sendo "...sobre inventar com o trabalho dos outros."

Quando decidimos começar o podcast, o Érico disse que em algum lugar, essa frase deveria ser mencionada, e que ele considera uma ótima definição do que a gente faz.


E de onde veio "Inventar com o trabalho dos outros"?


Em agosto de 2019, o glorioso CCQ, que abraça, nutre, carrega no colo, batiza e põe pra arrotar este site promovia um evento em pleno Beiramar Shoping ligado ao movimento Floripa Conecta, que destacava Florianópolis como cidade criativa.

No mencionado evento, eu tinha um soirée dançante, digo, apresentação, que, segundo fui instruído, seria sobre tradução, mas com algum viés criativo.


Dito isso, passei a me debruçar sobre o ofício de tradutor, o que exatamente a gente faz, etc. E começaram a brotar coisas como "encontrando soluções", "criando saídas geniais", "a criatividade como ferramenta do tradutor", e uma saraivada de baboseiras.


Até que finalmente veio a frase que batizou a palestra: "Inventando o Trabalho dos Outros".

A ideia principal por trás disso é o volume de trabalho criativo que um tradutor tem em cima de um trabalho que não é dele, de uma obra que não foi ele que escreveu.


Eu não tenho arcabouço acadêmico pra elaborar teoricamente o que são tradução, criação e transcriação, mas, na prática, é o que a gente precisa fazer o tempo todo. Por mais que raramente ou nunca se mexa no argumento ou no roteiro, o tradutor precisa encontrar vários caminhos novos pra chegar até onde o autor queria no idioma original.


Algumas decisões são até mais editoriais, mas muitas são soluções criativas que não vinham embutidas na obra original.


No showmício, digo, apresentação, eu usei o Príncipe Valente como estudo de caso, pra ajudar a focar em uma obra e suas soluções. Originalmente, o Príncipe Valente era uma tira semanal de página inteira, publicada nos jornais de domingo dos EUA e estreou em 1937 e segue publicado até hoje. Foster é de uma geração criada com romances de aventura medieval, como Rei Arthur, Os Três Mosqueteiros, Robin Hood, Ivanhoé, entre outras. Porém, essas obras, escritas em sua maioria no século XIX, traziam o peso da linguagem literária. Foster transformou isso em cultura pop. MAS, nem todo mundo sacou isso, ou foi traído pelas primeiras tiras, com texto ainda "duro".


No Brasil, tanto os tradutores mais antigos (pré-anos 80) quanto os portugueses (cujas traduções também vieram parar por aqui) optaram por um português muito rebuscado, quase difícil, pra narrar as aventuras do moço. E não tá errado, era uma opção. (Traduzir é fazer escolhas. Tipo "monte seu próprio dogão")


Em 2021, o que eu propus pra editora foi:

  • cortar as sinopses, pois, em vez de sete f*cking dias de intervalo entre páginas, agora era um nanossegundo, e seria uma abundância de informação redundante

  • facilitar ainda mais a linguagem dos personagens, a ponto de atrair novos leitores, geralmente afastados da obra pelas opções feitas nas versões anteriores

  • boa parte do tempo, Valente é chamado apenas de Val, tanto pelo narrador quanto pelos demais personagens. Decidimos não usar. Apenas Valente, príncipe, alteza, herdeiro de Thule, etc.

  • ajudar o leitor com a geografia, evitando notas de tradução. Os personagens não chamavam o Canadá de Canadá, pois não havia sido formalmente descoberto-colonizado-batizado, mas o narrador tinha essa prerrogativa. Assim foi com Islândia, África, México...



São soluções que me fizeram "inventar" essa nova versão do trabalho do Hal Foster, mas sem deturpar a ideia original dele, que era atrair mais leitores. E não acredito que tenha ofendido, magoado ou tirado o sono dos mais puristas.


Fora isso, a gente inventa nomes. Lembra que heróis / armas / vilões têm nomes que descrevem o que eles fazem ou são, não pode ser aleatório e deixar em inglês é derrota. A gente inventa piadas, charadas, enigmas, trocadilhos, rimas, etc. porque nossa ideia é entregar uma obra que te faça rir, chorar, ficar tenso e aliviado onde o autor esperava que isso acontecesse. Há quem prefira uma obra cheia de notas, e algumas até precisam delas, mas podem quebrar o ritmo de quem quer apenas chegar ao fim da história. E não tem nada de errado em querer isso num gibi.


Boa parte do trabalho de tradução é consumido com pesquisa e exercícios criativos. A digitação é como respirar, ato quase inconsciente, e você só lembra quando dá errado. Isso se o word te der essa mão.


Naturalmente, se o trabalho criativo parte do arsenal de informações na cabeça do tradutor, é natural que você leia uma versão que tem a identidade do autor, mas acaba carregando também a do tradutor. Então, por mais que haja uma linha de como o Batman deve falar (já discutimos aqui), o meu Batman fala de um jeito, o do Jotapê Martins, de outro, o do Bernardo Santana, de uma terceira, e por aí vai. Diferenças sutis, mas que existem.


Muitos dos pontos que eu coloquei aqui, nós debatemos nos diferentes episódios do Notas, especialmente no Ep 10 da primeira temporada, chamado justamente de "Inventando com o Trabalho dos Outros".

Abre teu coraçãozinho e ouve lá. Vai perceber várias vezes como a gente repete o mantra em duas versões.

A humilde "Inventar com o Trabalho dos Outros";

E a mais imodesta "Inventar o Trabalho dos Outros"


Você pode discordar, como pode discordar do formato da Terra ou da efetividade da máscara em tempos de pandemia, mas isso não vai mudar nada.


É o que é e fim.


Chistes à parte, mais do que definir ou responder, a grande diversão, o gigantesco aprendizado está em discutir esses temas. Bora?



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