• Carlos Henrique Rutz

O DIA EM QUE A TRADUÇÃO FICOU DATADA, MAS PASSA BEM

Alguém aí sabe quem é a moça abaixo e quais são suas músicas na parada de sucessos?



Pois então, trata-se de Valesca Popozuda, intérprete suprema do megahit "Beijinho no Ombro."

O que ela faz aqui? Só no fim do post.

Antes que a leitora e o leitor abandonem este blog por picuinhas musicais, informo que esta não é uma postagem sobre música, mas vai ter música, porque sim.


Quem lê gibi, em qualquer idioma que seja, sabe que os autores, sejam eles senegaleses, neozelandeses, brasileiros, estadunidenses ou norte-coreanos (estes últimos, apenas suponho, não temos como saber) adoram incluir referências de cultura pop em seus roteiros.


Seja uma versão deformada do David Letterman em Cavaleiro das Trevas, ou então a fixação do Deadpool pela atriz Bea Arthur, chegando a histórias inteiras permeadas por músicas do hit parade da época, é inevitável que a bagagem e o ambiente do autor permeiem seu texto (e arte também, mas me sinto incapaz de discorrer sobre o tema, já que minha coordenação motora fina é de uma foca alcoolizada).


Dito isso, e quando o texto vai ser traduzido, o que deve ser feito?

Isso vai ser uma decisão editorial. Longe de ser uma questão de certo x errado, você tem opções.

Algo bastante comum nos anos 1980-90 era trocar a referência original por algo ocorrido aqui. Não por todos os tradutores, nem em todos os casos, mas era mais verossímil do que hoje em dia, com acesso muito maior à informações. Trocava-se até as moedas. Séries de TV trocavam até as cidades. Isso faz parte de algo chamado localização. Mas hoje o post não é sobre isso. Não apenas. É sobre opções que podem ficar datadas. Especificamente, referências e citações musicais.


Jesus é sósia do Fiuk ou do Kenny Loggins ?


Recentemente, no podcast Notas dos Tradutores, discutimos no episódio Traduzindo o Retorno do Messias, quadrinho de Mark Russell que foi traduzido pelo compadre Érico Assis, integrante do trio podcasteiro que ainda tem Mario Luiz C. Barroso e este que vos fala.

Neste gibi, o Érico relatou que, em certo ponto da revista, alguém se atenta para o fato de que Jesus (o filho do Criador) lembra o Fiuk (filho do Procriador), e isso gerou uma crítica de que a opção ficaria datada, pois daqui um tempo ninguém se lembraria do Fiuk. O Érico concorda com esse ponto de vista, mas não vê nisso um problema.

Essas são as perguntas de hoje:

Ficar datado é, necessariamente, um problema?

Tudo o que vai pro papel tem que ser invulnerável à passagem do tempo?


Voltado ao Fiuk-Messias: a referência original do gibi era o Kenny Loggins, cantor americano que até lembrava Jesus, mas há mais de 30 anos!


Será que era a melhor opção inserir uma nota explicativa: (*) Kenny Loggins (1948) é um cantor e compositor americano cujos maiores sucessos são "Footloose" e "Danger Zone" -N. do T.

Uma assim certamente mataria a piada que, ali, era algo volátil. Nada sacrossanto.

Se eu colocaria o Fiuk? Não sei. Mas eu não lembraria do Kenny Loggins, e pararia a leitura pra pesquisar ou desviaria o olhar pra Nota, que se faria necessária.




Mais uma vez, é uma questão de opção. Tem um feeling, tem uma linha de pensamento, tem a determinação da editora, e tem... a cabeça do tradutor.

A gente fica o tempo todo em encruzilhadas. No mundo perfeito, a gente tem tempo e consulta cem pessoas pra tomar uma decisão. O mundo perfeito, assim como sushi barato e clássicos da Marvel, não existe.


No quesito referências musicais, tem muito do que conta mais pra história. Se alguém tá cantando (I can't get no) Satisfaction, dos Rolling Stones, e mais pra frente vão falar dos Stones, talvez o melhor seja deixar em inglês e colocar a tradução numa nota. É um risco muito grande trocar os Stones pelo... Barão Vermelho, e depois alguém falar da boca do Jagger e você ter que trocar pela do Frejat.

Urgente: Frejat saiu do Barão.

(há uns 4 anos, já...)

Barão Vermelho. Sem o Frejat e com todos de azul.

Voltamos à nossa programação:


Mas, se a letra da música é parte do diálogo ou da história, e vai ter um efeito nas ações em questão, aí é de se cogitar a troca.

Não, não é uma opção fácil. Sim, pode dar ruim.

E, sobre ser verossímil, é importante ter noção de onde estamos pisando. Uma história "séria" pode deixar o leitor perdido se, por exemplo, num eventual enterro da Tia May, alguém troca o Frank Sinatra cantando "My Way" pelo Roberto Carlos cantando "Emoções", porque vai gerar um imenso WTF?! na mente do leitor e tirar ele dali. Nos anos 80, era pré-internet, não geraria faniquitos em ninguém.


Mas, se é uma história cômica, e os personagens estão tirando sarro uns dos outros, pode valer a pena a manobra, pelo bem do leitor, a quem foi destinada uma piada musical naquela página, naquele quadro, e não uma nanopalestra sobre quem compôs, em que disco saiu, etc.

Se for uma hq em um tempo específico (anos 1960, por exemplo), uma boa escolha vai ajudar e muito na imersão do leitor, principalmente por trazer vocabulário da época (broto, brasa, cuca, carango...) É um fator relevante pra escolha. Mas não o único.


O Lanterna Verde é fã de Cauby Peixoto?


Em DC: A Nova Fronteira, de Darwyn Cooke e tradução minha, lançada tanto pela Eaglemoss quanto pela Panini, Hal Jordan ouve Cauby Peixoto no rádio do carro.

"Ah, mas o Cauby jamais tocaria numa rádio americana nos anos 1950!" Errou, jovem! (inserir voz do Faustão)

Cauby chegou a ter a 5a música mais tocada nas paradas dos Estados Unidos, mas com o nome de Ron Coby. O que eu fiz foi colocar "Conceição", e não "Birds, Bees and Coconut Trees", que foi seu hit estadunidense.

Pela enésima vez: pode discordar, deve discordar, tá tudo bem.

E, nessa situação, era algo totalmente casual, não interferia na história.

A música original era Wonderful World, gravada originalmente pelo Sam Cooke, mas os versos mostrados só aparecem numa versão de Art Garfunkel (isso, o do Paul Simon).



O Besouro Azul frequentava a Boate Azul?


Outra situação ocorreu quando traduzi Desígnios Divinos, que certamente não é um ponto alto da DC. Em uma das cenas, o Besouro Azul (à paisana) muito embriagado e expulso do bar pelo proprietário (a.k.a. Guy Gardner, o Lanterna Verde Joselito) canta uma música praticamente ininteligível. Mas... por que não dar uma melhorada? (se bem que o conceito de melhorar pode ser como impressão digital e *, cada um tendo o seu) Sendo assim, aproveitando uma pessoa em situação de sarjeta, coloquei um clássico do karaokê de fim de noite: ela mesmo, a Boate Azul.

Ah, a original é uma mistura de versos de músicas diferentes.




A Arlequina mandaria Beijinho no Ombro prazinimiga?


O próximo exemplo é de Arlequina: Prelúdios e Trocadalhos. Personagens caóticos como ela e o Deadpool dão pro tradutor a carta branca da anarquia, pois tem quebra de quarta parede, tem metalinguagem, e as leis da física são distorcidas assim como a anatomia nas mãos de Rob Liefeld.

Nessa hq, nossa pudinzinha está megafeliz porque tem dinheiro, armas e uma quadrilha pra enfrentar o Duas-Caras. É aí que entra a Valesca Popozuda.

Você já sabe, né? Não tem certo x errado, etc...




O resumo, meus amigos, é que, da mesma maneira que a gente assiste Masterchef jurando de pé junto que cozinha paleta de cordeiro com mais destreza que os pobres coitados que tão tomando esporro em rede nacional, cada um de nós também acha que tem a solução certa pra cada balão, onomatopeia e recordatório já impresso no universo, mas a gente só vai saber o peso que é com a mão na massa. E, infelizmente, queimando uns pães...


O DeLorean moral é um veículo perigoso


Daqui 10 anos, todos os exemplos dados podem ficar datados, mas celulares com flip, orelhões, calças boca-de-sino, mullets e costeletas também ficaram, e a gente não manda redesenhar ou fala:

Nooooossa, o Jack Kirby é datado!

Todos nós somos datados, e o que a gente produz também. Alguns autores incluíam até o noticiário da época, eleições, guerras, os presidentes, e absolutamente tudo isso ficou datado muito depressa.


Não é defeito nem problema, é característica de um produto de sua época, com tudo de bom e de ruim. Há de se ter cuidado ao embarcar nesse "DeLorean moral" e querer, a ferro e fogo, julgar hoje o que foi feito ontem.


Uma mãe que passar a alimentar seu bebê na base da Farinha Láctea hoje pode ser vista com maus olhos, por haver disponíveis opções mais saudáveis e até mais baratas.


Na Revolução Industrial, havia escassez de produtos frescos e essas fórmulas hipercalóricas e vitaminadas literalmente salvaram a vida de muita criança nos grandes centros urbanos/industriais do final do século XIX.


Vamos amaldiçoar aquelas mães ou entender o processo e ajudar a ajeitar o presente?


Pouquíssima coisa passa numa peneira radicalmente estreita. A gente também não vai passar, daqui 10 anos, ou cinco, ou mesmo daqui uns meses, quando ideias que nos pareciam incríveis chegarem ao papel e mostrarem que só faziam sentido durante alguns segundos, e só na nossa cabeça.

Talvez tarde demais. E tá tudo bem.


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