• Mario Luiz C. Barroso

MIKE GOLD: ELE FUNDOU A FIRST COMICS E REVOLUCIONOU A DC


por Mario Luiz C. Barroso


Michael Gold nasceu em Chicago no dia 4 de agosto de 1950. Formado em Jornalismo, trabalhou e trabalha muito em rádio, além de teatro, jornais e blogs diversos, sendo que hoje em dia tem uma coluna chamada Brainiac on Banjo no site Pop Culture Squad. Fundador da editora First Comics, onde revelou ou simplesmente lançou ao estrelato talentos como John Ostrander, Mike Grell, Howard Chaykin, Timothy Truman, Mike Grell, Steve Rude e tantos outros, Gold levou todos eles para a DC Comics na renovação pós-Crise nas Infinitas Terras, onde revitalizou o Arqueiro Verde (com Grell), Flash (Baron), Gavião Negro (Truman), Questão (com Dennis O’Neil & Denys Cowan), Sombra e Falcão Negro (Chaykin). Depois de passar 6 anos na DC (1986-1992), Gold se concentrou em várias iniciativas pessoais online e em rádio, além do relançamento de obras da First, como Grim Jack, de John Ostrander, e Jon Sable: Freelance, de Mike Grell, pela IDW Publishing. Segundo o site especializado Comic Vine, Mike Gold acumula 596 créditos em HQ. Em fevereiro/2018, ele nos concedeu esta entrevista exclusiva…





Nos quadrinhos, você tem mais créditos editando que escrevendo. Você prefere editar? Por quê?

A minha autoimagem é de escritor primeiro e radialista depois, mas há uma série de motivos pelos quais eu prefiro editar quadrinhos a fazer roteiros. Boa parte do que escrevo é não-ficção; eu cursei Jornalismo e produzi uma quantidade considerável de conteúdos políticos. Portanto, eu não posso dizer que tenho tanta experiência em escrever ficção para só fazer roteiros de HQ e nada mais. Mas isso não quer dizer que eu não escreveria mais histórias, claro.

Mas enfim, o principal motivo para eu preferir editar a escrever é que não quero fazer concorrência aos roteiristas com quem trabalho. Eles não devem sentir que só estão “tapando buraco” até eu roubar sua vaga. Eu gosto demais da experiência de colaboração na narrativa do meio “quadrinhos”, e sou apaixonado pelos aspectos catalisadores da edição: encontrar o talento correto, fazer algo novo com personagens antigos ou inéditos, aperfeiçoar um projeto, em suma, fazer as histórias em quadrinhos acontecerem. Adoro me envolver em diferentes projetos ao mesmo tempo – eu sou um polivalente inveterado com curta capacidade de concentração.



Como e por que você fundou a editora First Comics?


É uma longa história, mas vou tentar resumir só com o conteúdo sexy. Em 1973, eu trabalhava em um supermercado da rede Woolworth’s em Montreal, na província de Quebec no Canadá, e eles tinham o que hoje chamaríamos de departamento de graphic novels. Eu admirava as obras lindíssimas assinadas por gente como Durillet, Girard (Moebius), Bernet e Bilal – uma vez que tinha visto bem pouco desse tipo de publicação nas editoras de gibis na época. Eu tinha inveja desses álbuns de luxo e do formato graphic novel. Queria me envolver com a expansão da indústria norte-americana dos quadrinhos e, ao mesmo tempo, sempre me via a ponto de abandonar a ideia. Cerca de três anos depois, a nova editora-chefe da DC Comics, Jenette Kahn, me ofereceu um emprego justo na época em que eu estava “entre empregos”, entre uma estação de rádio e outra. Recebido o convite, concluí que precisava começar em algum lugar e pesou muito o fato de ter crescido com a DC – e, a partir de 1961, com a Marvel – então, por que não aproveitar a oportunidade?


Eu aprendi a produzir quadrinhos, a lidar com o talento desse meio (eu já tinha trabalhado como editor por um tempo, mas só de jornais e revistas), a promover e distribuir gibis, e estava pronto para sair por conta própria e saltar alguns obstáculos. Na época, o produtor teatral Rick Obadiah pediu conselho para o Jim Steranko no sentido de promover as peças de Gordon Warp, que estavam sendo revividas em Chicago para o público dos quadrinhos. O Jim me indicou para o Rick. Nós trabalhamos nas peças do Warp e o Rick me perguntou se eu achava que a DC ou a Marvel gostariam de publicar adaptações. Eu disse que sim, com certeza, mas que nós obteríamos resultado bem melhor publicando por conta própria. Expliquei como funcionavam os mercados de venda direta, gibiterias e convenções, e o Rick concluiu que seria melhor para todo mundo optar pelas maiores editoras. Tudo bem. Eu expliquei como abordar e trabalhar com Paul Levitz e Jim Shooter, e dei uma lista de dez coisas com as quais tomar cuidado.

Rick leu a lista e não acreditou. “Ninguém trabalha assim!”, exclamou ele. Eu respondi: “Bem-vindo ao maravilhoso mundo dos quadrinhos!”. Ele voou para Nova York para se encontrar com Paul e Jim – eu sugeri que se encontrasse com o Paul primeiro porque tinha certeza de que o Jim falaria algo como “nós cobrimos a proposta da DC – quanto foi?”. Quando ele se encontrou com Paul Levitz, nove dos dez itens na minha lista “impossível” vieram à tona. Rick me ligou logo depois da reunião, pediu desculpa por não acreditar em mim e falou: “talvez nós devêssemos mesmo publicar por conta própria”. Mas, primeiro, ele tinha de se encontrar com Jim Shooter que, na verdade, praticamente só perguntou: “Nós cobrimos a proposta da DC – quanto foi?”.


Nós decidimos publicar por conta própria e fundamos a First Comics. Eu disse ao Rick que o único jeito de ganhar dinheiro editando quadrinhos seria maximizando a produtividade. Se é necessário alugar um espaço comercial, contratar diretor de arte, gerente de produção, publicitário e assim por diante, nós precisaríamos de um espaço com seis ambientes para produzir Warp e seria muito tranquilo editar de quatro a seis gibis com as mesmas pessoas. Nós passamos um ano montando e financiando a empresa, e contratamos Joe Staton, Bruce Patterson, Rick Oliver e Doug Rice para compor a redação (depois, ainda incluímos Alex Wald e Paul Guinan), além de Howard Chaykin, Mike Grell, Frank Brunner, Peter B. Gillis, o próprio Joe Staton e Marty Pasko, todos amigos meus, para fazer a mágica acontecer. E também convidamos novatos como meu velho amigo e dramaturgo John Ostrander, Timothy Truman, Mark Wheatley e Marc Hempel.





Por que a First Comics teve um começo espetacular e, depois, precisou fechar as portas?

Bom, a resposta mais egoísta para essa pergunta seria “porque o editor-chefe largou a empresa devido a frustrações com a direção e seu senso de prioridades.” Muitas decisões da diretoria eram tomadas após uma vitória de 3 votos a 2, sempre comigo no lado perdedor. Dick Giordano ouviu falar disso e me ofereceu um emprego maravilhoso na DC Comics como editor sênior (depois, editor de grupo) e diretor de desenvolvimento editorial. Eu deixei a First e voltei à DC. A First ficou sem alguém com a experiência, nível de conhecimento e os contatos que eu tinha. A editora capengou por alguns anos, mas boa parte dos autores pulou fora logo depois que eu saí. Eu trabalhei com quase todos eles na DC, além de uma quantidade incrível de pessoas fabulosamente talentosas.




Como os outros editores e autores da DC reagiram quando você levou tantos talentos da First Comics, ajudando a revitalizar importantes personagens após Crise nas Infinitas Terras?

Bom, os nossos gibis – como Arqueiro Verde, Flash, Questão, a minissérie Lendas, assim como projetos “não-heroicos” como Mundo Desolado e Breathtaker – foram muito lucrativos, especialmente os títulos de super-heróis. Portanto, todos ficaram felizes. A burocracia corporativa da Warner Bros. levou quase sete anos para me exaurir, o que foi bem mais do que Rick Obadiah esperava!



Você sentiu o peso da responsabilidade ao renovar aqueles personagens nos anos 80 ou foi um trabalho como outro qualquer?

Com certeza, a tradicional rotina editorial envolve muita responsabilidade. Mas, assim como quase todo mundo no ramo dos quadrinhos, eu era muito fã – tanto do meio em si quanto de seus grandes personagens. Eu me diverti bastante, que era o meu pré-requisito para levantar cedo todo dia. O papel de um editor, ainda mais um editor de grupo, é providenciar a força catalisadora que une a todos nos bons e maus momentos. Eu gosto desse papel.


Você chegou a ver o seu toque pessoal nas narrativas desses personagens em outros meios, como as séries de TV “Arrow” e “The Flash”?

Sim, principalmente nas primeiras temporadas. Mais de uma dúzia dos personagens que eu desenvolvi ou revitalizei (ou fiz o “reboot”, que é um termo idiota) chegaram à telinha através do canal CW, e sim, eu achei muito legal. Quando o Cão Raivoso apareceu em Arrow, eu mal pude me conter de alegria.



Cão Raivoso (Wild Dog) - Série Arrow

Você trabalhou para a First, DC, Image e outras editoras, mas nunca a Marvel. Foi uma escolha pessoal?

Não, simplesmente aconteceu assim. Eu sempre tive muitos amigos na Marvel e o mercado profissional de quadrinhos é minúsculo. Nós trabalhamos juntos em convenções, divulgamos o trabalho dos outros… de todas as mídias, a das HQs é a única onde trabalhei que até mesmo as pessoas que se odeiam continuam se tratando com intimidade e informalidade.


Ao editar, você normalmente dava muita liberdade à equipe de criação ou estabelecia regras específicas a serem seguidas? Se sim, quais seriam? Essas regras variam de tempos em tempos, de empresa em empresa?

As regras mudam de acordo com o proprietário dos personagens. Na DC, a Time-Warner é dona do Flash, Arqueiro Verde, Batman e companhia, e parte do meu trabalho é proteger essas propriedades da melhor forma possível produzindo gibis fantásticos. Os autores têm muito mais controle quando a propriedade é deles, e meu trabalho se limita a… proteger essa propriedade da melhor forma possível produzindo gibis fantásticos!

O editor também representa os leitores. As histórias precisam fazer sentido e manter uma lógica interna. Conforme Denny O’Neil já disse: “Pode ser uma ciência de mentirinha, mas é a nossa ciência de mentirinha”. Mas, obviamente, é impossível agradar a todos, e não tem problema. Nós estamos contando histórias, não produzindo leite. Portanto, o editor fica naquela posição bem no meio entre o dono da empresa, o talento e o leitor, levando pancadas de todos os lados e se virando para resolver os problemas. Nem todos gostam dessa posição; é preciso ser um pouco louco até mesmo para querer a vaga e, para a minha sorte, eu sou totalmente insano.


O que exatamente é a sua empresa ComicMix e por que você sentiu a necessidade de fundá-lo?

A “tal da internet” estava chamando atenção quando chegou e, como profissional da mídia de longa data, que facilmente se distrai com coisinhas brilhantes, eu quis aprender o que era aquilo e, se possível, fazer parte dela. Agora, eu já estou na próxima etapa, levando meus esforços para uma plataforma bem mais avançada chamada Pop Culture Squad, (confira o popculturesquad.com!). Estou trabalhando com a Adriane Nash e sua equipe incrivelmente paciente e talentosa, me divertindo muito. Isso é bem mais criativo do que qualquer outra coisa que eu tenha feito na última década – tirando meu programa de rádio.



No rádio, você faz comentários diários e possui um programa de música semanal. Como você comentaria a política americana hoje e quais são seus cantores ou bandas favoritos?

Ah, finalmente! Uma pergunta complicada. Pois vou responder a parte mais fácil antes. Eu tenho um gosto bem variado que abrange o rock, blues, rockabilly e literalmente todas as formas de música com raízes norte-americanas… o tipo de música que transmite muita energia. Eu adoro por no ar coisas com que os ouvintes nunca tiveram contato, de novos talentos a bandas ou cantores esquecidos há muito tempo. Eu geralmente toco músicas tão obscuras que até o próprio autor já esqueceu. Meus favoritos são os clássicos: Bo Diddley, Koko Taylor, Willie Dixon The Clash, The Who, Genya Ravan, Mavis Staples, Eddie Cochran, Suzi Quatro, Mose Allison, The Dollyrots, Rockpile… a minha lista completa estouraria sua capacidade de armazenamento!

Já quanto à política americana… bem, eu sou ativista político desde os 16 anos de idade. Eu meio que vago na direção do anarco-sindicalismo, mas adoto valores e posições que se espalham por todo o espectro.

E tem o Trump. Eu poderia falar muita coisa dele, e até falo com frequência, no programa Weird Sounds Inside the Gold Mind, no Pop Culture Squad, e em todo lugar por onde passo. Eu compartilharia minhas ideias com você agora, nesta plataforma internacional, mas não sou muito fã de climas quentes e úmidos, e não tenho o menor desejo de mudar para a Baía de Guantánamo.

Por enquanto.

27 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo