• Mario Luiz C. Barroso

JOHN OSTRANDER: O CRIADOR DO ESQUADRÃO SUICIDA!


por Mario Luiz C. Barroso No dia 13/08, começa a pré-venda do Esquadrão Suicida – vol. 1, da série DC Vintage da Editora Panini. Comemorando a sorte de ter traduzido esse material via Studio 313 (São as 9 primeiras HQs, 232 páginas!!), resolvi arriscar uma entrevista com John F. Ostrander, o grande criador do Esquadrão, dono da ideia de usar vilões a serviço do bem… e não é que consegui bater um papo exclusivo para o blog do CCQ?

Nascido em 20 de abril de 1949 em Evanston, Illinois, Ostrander é um dos mais antigos roteiristas de HQ em atividade, tendo integrado o fantástico elenco de autores na editora independente First Comics no começo dos anos 80, onde criou o personagem Grim Jack ao lado do amigo Tim Truman.


Levado junto a vários talentos da First para a DC Comics pelo editor Mike Gold na renovação pós-Crise nas Infinitas Terras, John estreou na minissérie Lendas para depois criar o Esquadrão Suicida e, ao lado da falecida esposa Kim Yale, também trabalhar em Nuclear, Caçador, Gavião Negro e outras séries. O autor passou por vários títulos na Marvel, entre eles, X-Men, Mercúrio e Justiceiro. Trabalhou nas editoras Eclipse, Chaos!, Valiant e Dark Horse, onde expandiu consideravelmente a mitologia de Star Wars. Atualmente, John tem uma coluna semanal no site ComicMix e, ainda em 2021, fez uma ponta no segundo filme do Esquadrão Suicida como dr. Fitzgibbon. Segundo o site especializado Comic Vine, o autor possui 1012 créditos em histórias em quadrinhos – o que não é pouco! Nesta entrevista concedida no final de julho, ele foi extremamente simpático e atencioso. O resultado pode ser visto abaixo…

1. Você escolheu o título Esquadrão Suicida ou foi ele que te escolheu? O que pode nos contar sobre aqueles primeiros dias?

Eu só estava começando a trabalhar na DC. Eu e o editor Robert Greenberger ficamos muito amigos durante as convenções de quadrinhos que frequentávamos e ele queria que eu fizesse um título para a editora. Eu pedi para escrever as aventuras dos Desafiadores do Desconhecido – que é um grande título – mas outra pessoa chegou primeiro, e o Bob me ofereceu o Esquadrão Suicida, grupo que havia aparecido por cinco edições no título The Brave and the Bold, especializado em antologias, e me disse que eu podia fazer o que quisesse com ele. Eu pensei: “Que título mais idiota! Quem participaria, por vontade própria, de um grupo chamado Esquadrão Suicida?”. E a resposta logo me veio à cabeça: “Pessoas que não têm outra escolha”. Mas quem costuma não ter outra escolha? Prisioneiros. No Universo DC, isso equivale aos supervilões. Eu adoro brincar com criminosos e me lembrei de um grande filme, Os Doze Condenados. A ideia era enviar os fora-da-lei em missões secretas para o governo dos EUA. Se fossem pegos, azar deles. Se morressem, não haveria grande perda. E ali só haveria personagens que eu poderia matar – a exemplo dos vários que morreram em Os Doze Condenados. Também foi uma chance de mostrar que os vilões poderiam ser uma ameaça real se deixados por conta própria.

2. O que você trouxe da editora First Comics para injetar sangue novo na recém-renovada DC Comics pós-Crise nas Infinitas Terras e pós-Lendas?

Bem, eu já era fã da DC e a Crise tinha mostrado a toda a indústria de quadrinhos que a DC estava aberta a tudo agora: não era mais a rotina ou tradição de sempre. A DC queria novas ideias e formas de pensar as coisas. Eu também trouxe comigo o fato de já ser bem vivido até então. Estava com 30 anos, uma idade avançada para recém-chegados. Eu também tinha feito teatro (entre outras coisas), era ator e dramaturgo profissional. Trabalhei na First Comics porque um amigo meu, o Mike Gold (entrevistado pelo CCQ no dia 12/07/2021), era membro-fundador e editor-chefe. Ele conhecia meu trabalho como dramaturgo e sabia que eu adorava quadrinhos, e queria ver o que eu era capaz de produzir nesse meio. Quando o Mike se transferiu para a DC, me levou junto. Meu primeiro trabalho para a nova editora foi o roteiro da saga Lendas.

3. Qual foi o critério para selecionar a primeira formação do Esquadrão? Algum dos personagens foi imposto pelo Bob Greenberger ou pela DC?

Eu não queria grandes vilões; preferia personagens que pudesse controlar, com que só eu pudesse brincar. O Coringa, por exemplo, estava muito ligado aos títulos do Batman. Eu não poderia fazer nada com sua biografia e certamente não podia matá-lo se quisesse. Por outro lado, o Pistoleiro também era um vilão do Batman, mas tinha sido pouquíssimo usado, não era um coadjuvante frequente. Eu gostava do uniforme dele e podia brincar com sua minúscula biografia. Da mesma forma, os responsáveis pelo Flash não tinham o menor interesse em usar o Capitão Bumerangue e, portanto, ele estava livre. Aliás, o Capitão foi uma sugestão do Bob Greenberger, agora meu editor. Eu resisti no começo, achando o personagem palhaço demais, mas acabei brincando com o canalha e ele veio a se tornar um dos meus integrantes favoritos do Esquadrão. O Bob tinha outras sugestões, como o Tigre de Bronze, por exemplo. Aliás, meu amigo e editor contribuiu muito na construção da nova série desde o começo.

4. Como era o seu método de trabalho ao lado de Kim Yale e Luke McDonnell? Quais seriam as maiores contribuições de cada um ao Esquadrão Suicida?

Minha finada esposa Kim Yale passou

a ser minha co-roteirista a partir do número 23 de Suicide Squad. O Luke, é claro, foi o artista inicial da série (mas foi John Byrne quem desenhou o grupo durante a minissérie Lendas, que precedeu o lançamento da revista mensal). Kim trouxe suas próprias perspectivas como mulher e indivíduo. Por exemplo, o pai dela tinha sido tanto capelão e conselheiro na Marinha, além de ser um ministro episcopal. Lembra um pouquinho o padre Richard Craemer? A Kim era uma tremenda roteirista, mais consciente dos segredos da língua do que eu, por exemplo. Quando começamos a escrever juntos, tínhamos computadores separados e usávamos disquetes onde gravávamos determinado trecho, sempre trocando esses disquetes para um analisar a cena que o outro escreveu. Nós planejamos toda a trajetória daquele título. O Luke trouxe suas fantásticas técnicas narrativas. Eu adorava quando ele se arte-finalizava. Gostei demais quando ele fez toda a arte na minissérie do Pistoleiro. Ao assumir a arte-final, o Luke realçava seus traços de um jeito melhor que a maioria dos finalistas, embora alguns deles – principalmente o Karl Kesel – tenham feito excelentes trabalhos. O Karl também me enviava ideias para o título, e nós acabamos incorporando algumas.

5. Para um roteirista, trabalhar com vilões é melhor ou pior que trabalhar com heróis? Em que sentido?

Eu gosto de personagens com falhas: quem não tem as suas? Não considero os personagens infalíveis realistas. Acho que as pessoas se identificam mais com quem tem falhas.

6. Por que os anos 80 foram tão importantes no sentido de trazer os principais tópicos dos jornais e a realidade nua e crua aos quadrinhos?

Eu acho que houve uma evolução. O mundo externo invadiu as HQs. E nós tínhamos toda a influência das editoras independentes, como a First, onde esse tipo de realidade era o ponto de partida para vários títulos. Veja o Jon Sable: Freelance de Mike Grell, por exemplo. Grell era conhecido pelo seu trabalho em O Guerreiro e na Legião dos Super-Heróis, na própria DC, mas acho que, quando ele começou a escrever o Arqueiro Verde pós-Crise, ninguém esperava aquele nível de realismo e narrativa “pé-no-chão” da parte dele.

8. Por que você sentiu a necessidade de criar uma personagem como Amanda Waller? Na sua opinião, o quanto ela se aproxima de um diretor de operações secretas do governo na vida real?

Eu não conheço nenhum agente secreto pessoalmente. Essa personagem provavelmente reflete toda a minha leitura dos romances de ficção e espionagem do John LeCarré. A Amanda reflete certas mulheres negras que eu conhecia. A “necessidade” de uma personagem como ela, na minha opinião, é que não existia ninguém igual nos quadrinhos e, na verdade, não surgiram muitos parecidos depois que ela surgiu. O Esquadrão precisava de um líder, uma pessoa tão durona quanto o personagem do Lee Marvin em Os Doze Condenados. Não existiam (nem existem) personagens negros suficientes nos quadrinhos de super-heróis, e eu tive a oportunidade de criar uma. Olha, eu sou mais branco que papel e, por isso, não posso afirmar que tenho esse tipo de vivência. Não escrevi exatamente uma personagem negra, mas uma personagem que por acaso era negra e, mais importante, humana. Amanda marca presença desde sua estreia, e é um dos poucos personagens criados nas HQs dos anos 80 que fizeram isso.

9. Qual é o seu personagem preferido no Esquadrão Suicida e por quê?

Você quer saber de qual dos meus filhos eu gosto mais? Bem, obviamente, a Amanda é um deles. Ela é negra, de meia-idade, não parece uma top model (na maior parte do tempo), é meio baixinha e não tem superpoderes. Minha imagem favorita dela é a capa de uma das edições do Esquadrão na qual ela prensa o Batman contra a parede, com o dedo apontado para ele, esbanjando personalidade e força de vontade. Isso mostra bem quem ela é. Outro favorito é Floyd Lawton, o Pistoleiro. Do jeito que eu o caracterizei, lacônico a ponto de quase parecer mudo, ele não ligava muito se ia viver ou morrer. Não era um desejo suicida em si, mas Floyd não estava nem aí. E, se o sujeito não valorizava a própria vida, quanto ele iria se importar com a sua? E tem o Capitão Bumerangue, claro. Admito que não queria usá-lo no começo, mas o imbecil logo se tornou um dos meus personagens mais queridos. Ele veio da Galeria de Vilões do Flash e era um vilão de corpo e alma. Justo quando você pensava que ele não podia se rebaixar ainda mais em termos morais, o Digger Harkness descobria um novo nível inferior. Ele era imundo, mas sabia disso e gostava. O Capitão sempre me surpreendia! Eu também já mencionei o padre Richard Cramer, o capelão e conselheiro da penitenciária de Belle Reve, base do Esquadrão. Na época, eu e a Kim sentíamos que as pessoas de fé eram pintadas como hipócritas ou algo ainda pior, mas essa não era a nossa experiência. Não nego que existam religiosos hipócritas, mas eu e minha esposa conhecíamos padres que eram realmente muito bons, gente de bem, que faziam o bem de forma desprendida. Eles eram membros das famílias Yale e Ostrander, e tudo. Aliás, o nome desse personagem é uma composição de duas pessoas nessas condições. Ele refletia esse ponto de vista… e também tinha um ótimo senso de humor.

10. Como você se sente após ver não apenas um, mas dois filmes do Esquadrão Suicida ganharem as telonas? Qual é a sua opinião sobre eles?

John Ostrander se preparando para a "ação"

Estou feliz da vida. Sei que nem todos gostam do primeiro filme, mas eu o tenho em DVD e assisto várias vezes por ano. Ele certamente foi bem o bastante nas bilheterias, senão, não justificaria um segundo filme. Ainda não assisti o mais recente, mas sei que vai ser um sucesso porque, afinal de contas, eu participo. Foi uma sequência em flashback, mas, certamente, muito divertida de fazer. E James Gunn conhece o Esquadrão e suas respectivas fontes de consulta. A Warner Brothers lhe ofereceu um filme do Super-Homem, mas ele recusou porque ama o Esquadrão. James é um sujeito incrível, absurdamente talentoso, e não tenho dúvida de que o filme será um sucesso.


11. A Panini Brasil vai publicar o primeiro volume do seu Esquadrão Suicida, reunindo o material que saiu na revista Origens Secretas e os oito primeiros números da série regular. O que você planejou para o primeiro ano da série e o que conseguiu fazer? O que o leitor pode esperar desse volume?

Esse encadernado começa com Secret Origins 14, que narrou a origem do Esquadrão remontando aos dias da II Guerra Mundial e nos apresenta tanto Amanda Waller quanto Rick Flag (na verdade, o Esquadrão já tinha feito sua primeira aparição na minissérie Lendas). Que eu me lembre, a história de Origens Secretas foi lançada duas semanas após a última edição de Lendas, e o primeiríssimo número de Esquadrão, duas semanas depois disso. Foi um lançamento muito bem-planejado.

Esquadrão Suicida vol.01 - DC Vintage

A primeira história se divide em duas partes por necessidade. Quando se lança um gibi, é importante apresentar o personagem principal, o contexto, a direção geral do título, sua maior premissa, os relacionamentos e talvez o tema geral. Em Esquadrão Suicida, nós tínhamos um terreno enorme a cobrir. Eu não podia presumir que todo leitor do nosso número um tinha lido Lendas ou mesmo Origens Secretas. Por isso, todos os elementos básicos deviam constar do número de estreia. Não apenas tínhamos de apresentar os integrantes do Esquadrão, mas também os funcionários do QG, a própria penitenciária de Belle Reve, a ameaça (nós criamos uma superequipe para o Esquadrão enfrentar) e a localização do QG dos vilões. Nós também incluímos a ideia de que qualquer membro do Esquadrão poderia morrer durante uma missão: isso era integral na consolidação do conceito da equipe.

Depois, vieram duas histórias fechadas. Uma acontece nas ruas do país, sendo surpreendente (e tristemente) relevante hoje em dia. Em “O Falso Herói”, na qual um rico racista cria o alter ego de um herói mascarado para instigar conflitos raciais. A trama tem todo um clima de Missão: Impossível.

A outra história fechada acontece dentro de Belle Reve, o QG do Esquadrão, na qual nossos protagonistas enfrentam guerreiras de Apokolips, as Fúrias Femininas. O Esquadrão está em terrível desvantagem. Essa história é a continuação de um gancho deixado em “Legado”, no último capítulo de Lendas – onde a minha versão do Esquadrão apareceu pela primeira vez. A minha intenção ao fazer duas edições fechadas era dar aos novos leitores uma chance de conhecer bem o grupo – algo que é sempre bom nas primeiras edições de um novo título e aconselhável ao longo dos anos. Isso mantém o gibi acessível aos leitores que chegam depois. A outra receita é continuar costurando a narrativa. É um jeito de manter tudo interessante para mim e os leitores.

Depois, vem um arco em três partes no qual o Esquadrão parte em missão na União Soviética, onde deve libertar uma prisioneira política. Aqui, tudo termina muito mal, algo que vira uma tradição para o grupo: as coisas não saem como o planejado e frequentemente são desastrosas.

Esse volume se encerra com mais uma HQ fechada e algo mais que ficaria recorrente, os “Arquivos Pessoais”. Nesse caso, o psiquiatra da equipe, dr. Simon LaGrieve, está ditando observações sobre vários membros do Esquadrão, inclusive Amanda Waller. Não há uma missão nesse número: é, basicamente, o ponto de partida de várias subtramas ou simplesmente o aprofundamento das mesmas. Diferentes personagens viriam a criar os “Arquivos Pessoais” em edições futuras. Esse recurso ficou popular e recorrente na série, sempre centrado no aprofundamento dos personagens. Isso me dava chance de me concentrar em personagens individuais, algo para o que eu não teria espaço em uma série regular.

Volta e meia, morre um membro do Esquadrão. Afinal, por que mais o gibi se chamaria Esquadrão Suicida? Isso mantinha o elenco fluido: nunca se sabia quem ia aparecer, morrer ou deixar o grupo, algo que, na minha cabeça, mantinha o frescor da revista. Eu não queria que o leitor fosse capaz de prever o que ou com quem ia acontecer. E, basicamente, é tudo isso que está em jogo neste primeiro volume com as HQs iniciais da minha passagem pelo Esquadrão.


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