• Mario Luiz C. Barroso

10 PERGUNTAS - PABLO MARCOS

Atualizado: Out 21

Entrevista realizada em (abril de 2017).

No último dia 31 de março, Pablo Marcos Ortega completou 81 anos. Nascido em 1937 na cidade de Laran, Chincha Alta, Peru, mudou-se aos cinco anos para a capital Lima. O gosto pelos desenhos se estendeu da infância à idade adulta, e Pablo começou a vida profissional trabalhando em jornais, onde fazia caricaturas e ilustrações esportivas. Polivalente, passou a também desenhar tiras de jornal e tornou-se diretor de arte do diário Expreso.

Em 1967, mudou-se para o México e, na década seguinte, Nova Jersey. Nos EUA, trabalhou para as editoras Warren e Skywald com quadrinhos de terror que lhe valeram a posterior transferência para a Marvel Comics. Lá, se popularizou com seu trabalho em gibis estrelados por vampiros e zumbis, na maioria em preto e branco. Os anos 80 trouxeram o auge da carreira de Pablo Marcos, quando este formou a equipe criativa de The Savage Sword of Conan ao lado do consagrado roteirista Roy Thomas e do premiado desenhista John Buscema.

Na década seguinte, realizou seu trabalho de mais longa duração no título Star Trek: The Next Generation. Atualmente, o artista se divide entre suas casas nos EUA e na Colômbia, visitando ocasionalmente sua terra natal. Sempre com um bloco de papel em mãos, teve de prometer à esposa Myriam que, pelo menos aos fins de semana, deixaria de desenhar. Além das histórias do Tarzã que produz regularmente para a editora Edgar Rice Burroughs Inc. em parceria com o amigo Roy Thomas, Pablo expõe suas obras e atende a pedidos de ilustrações do mundo inteiro através da página www.pablomarcosart.com.


O site especializado Comic Vine lhe atribui 674 créditos nas mais variadas editoras e publicações. Nesta entrevista exclusiva, Pablo fala dos principais momentos de sua carreira, métodos de trabalho, da amizade com Roy Thomas e arrisca fazer algumas previsões para a Copa do Mundo de 2018...


1. Desde que você começou a desenhar, houve um grande avanço tecnológico. Quais técnicas clássicas você usa até hoje e quais novos recursos adotou?


Pablo Marcos: Na Hacienda Laran, departamento de Chincha Alta de Ica, Peru, onde nasci, não havia rádio e muito menos televisão. Era uma aldeia muito pequena e pobre, quase esquecida pelas autoridades municipais. Gostar de desenhar nessas condições foi praticamente um instinto, não porque alguém me ensinou ou porque passei por outras situações que vemos hoje no cinema ou na televisão. Na época, eu via muitos cavalos na região e eles me chamaram a atenção. Talvez seja por isso que gosto tanto de desenhar esses magníficos animais.


Quando meu pai nos levou para morar em Lima, meu universo de imaginação se ampliou bastante. Na capital, eu podia ver e ler revistas, ir ao cinema aos sábados para assistir filmes que, nessa época, passavam em episódios semanais. Eu sempre desenhei do mesmo jeito: imaginando situações e observando revistas de aventura. Eu ainda era novinho quando desenhei meu primeiro retrato: o de meu avô. Ele me deu um jogo de tintas a óleo. Eu quase não consegui dormir de tanto que olhava para o meu presente – que, para mim, era um sonho maravilhoso. Mais tarde, com essas tintas, fiz muitos desenhos que me permitiram comprar papelão, tinta chinesa e outros materiais artísticos simples. Eu ainda uso técnicas tradicionais, gosto de trabalhar em papelão ou papel. Mas não me oponho aos avanços tecnológicos, aproveito e crio minhas próprias cores digitais por prazer.


Conan the Barbarian #69 - Pablo Marcos Cover

2. Roy Thomas é um grande admirador de seu trabalho. O que pode nos contar sobre seus anos de amizade e trabalho com ele?


Marcos: No início da década de 1970, depois de ter trabalhado nas editoras Waldman Publishing e Warren Magazines, cheguei na Marvel Comics. Lá, conheci

Stan Lee e comecei a trabalhar com ele (nas revistas Marvel do Reino Unido) e Roy Thomas. Com Roy, fiz as séries Tales of the Zombie e Morbius. Desde o começo, eu me entendi perfeitamente com ele e, quando desenhei Conan, Roy só me dava a noção da trama; eu desenhava toda a aventura e, depois, ele escrevia com base nas minhas ilustrações. Nunca tivemos qualquer problema ou divergência. Sempre entendi tudo o que Roy queria que eu desenhasse e ele me sempre me deu toda a liberdade para desenvolver a trama em questão.


De lá para cá, continuamos trabalhando juntos em grande harmonia. Em 2013, iniciamos uma nova versão de Tarzã dos Macacos para a editora Edgar Rice Burroughs Inc, publicada digitalmente toda semana. Estamos indo para o número 158. A cor está por conta do colombiano Oscar González. Também com Roy, fiz 10 páginas para a comemoração do 100º número das aventuras da Sonja, a Guerreira, publicadas pela Dynamite Entertainment. Eu e Roy trabalhamos juntos em uma atmosfera de camaradagem e amizade há mais de 40 anos.

Red Sonja # 31 (Dynamite Entertainment) - Pablo Marcos Cover

3. Como era seu método / rotina de trabalho com Thomas e John Buscema no aclamado Conan, o Bárbaro, nos anos 70?


Marcos: Às vezes, era eu quem interpretava os rápidos traços de John Buscema e os finalizava a lápis para depois fazer o acabamento à tinta. Nós éramos um grande grupo trabalhando juntos para produzir essas 50 páginas mensais da Conan. Em outras ocasiões, trabalhávamos apenas eu e o roteirista Roy Thomas. Ele me dava uma sinopse do argumento e eu criava as páginas para que, depois, ele inserisse os recordatórios e diálogos. Isso acelerava muito a produção da revista.


Tales of the Zombie - Pablo Marcos Art

4. Você também ficou famoso pelo seu trabalho em Tales of the Zombie, da Marvel. Qual é a sua opinião sobre os quadrinhos e as séries de televisão The Walking Dead?


Marcos: Gostei muito de fazer este tipo de aventuras de puro terror, mesclado com ações bem desenvolvidas pelo roteirista Steve Gerber. As aventuras propostas por Steve eram elegantes e não chegavam a conter violência extrema. Na minha opinião, A série The Walking Dead matou todo o terror nas aventuras desse tipo. Ela chega a ser mórbida, e o canibalismo causa muitos desconfortos em alguns espectadores. Essa violência acabou com aventuras de terror como Drácula, Vampirella e outros do gênero. Eu absolutamente não gosto de ver uma pessoa morta comendo carne humana. Para mim, é horrível e nauseante, uma imundície em termos de terror. Com Simon Garth, o Zumbi da Marvel, tivemos grandes aventuras com ação e suspense.


5. Na sua opinião, por que os quadrinhos de terror não são tão bem-sucedidos hoje?


Marcos: Porque o público se cansou de ver tantas cenas grotescas, sem argumentos com transcendência. Como consequência, as aventuras no estilo das que foram produzidas na época do esplendor do horror foram definitivamente enterradas.


6. Qual é o seu segredo para que os desenhos em preto e branco tenham tanta vida quanto os coloridos?


Marcos: Em primeiro lugar, jamais gostei de repetir uma cena. Se, por acaso, os colecionadores ou admiradores me pedem para fazer uma recriação ou mesmo repetir um desenho, sugiro algo diferente na mesma linha. Segundo, procuro dinamismo em cada página através de diferentes pontos de vista, layout do painel, textura, iluminação e grandes contrastes.


Star Trek: The Next Generation - The Modala Imperative

7. Como foi sua experiência fazendo o desenho e a arte dos quadrinhos de Jornada nas Estrelas?


Marcos: Eu desenhei esse título por um bom tempo, e foi uma série muito popular. Primeiro, desenhei Star Trek: The Modala Imperative (com Peter David e Michael Jan Friedman) para fazer a transição entre a série clássica e a nova geração. Foi um belo desafio, pois, até ali, eu estava muito comprometido com ação, músculos, cavalos, mulheres sexy… e, de repente, passei a fazer personagens existentes, vivo, baseados em atores de filmes e seriados. Foi uma experiência interessante, um tanto quanto passiva, embora a ação estivesse presente em alguns capítulos, quando os tripulantes da Enterprise entravam em choque com seres de outras galáxias.


8. Quais são os maiores desafios na criação de personagens que já possuem referências humanas, como atores de Jornada nas Estrelas, por exemplo?


Marcos: Cada personagem da série era um ator de grande prestígio e conhecido pelos leitores. Então, produzir as aventuras com eles exigiu bastante das técnicas de retrato. Felizmente, eu já tinha experiência com isso, pois, antes de vir para os EUA, eu trabalhei em quadrinhos de personagens históricos, de quem havia pouquíssima referência gráfica, mas era necessário ser o mais fiel possível, pois eles realmente existiram e tinham de ser reconhecidos pelos leitores. Também desenhei várias aventuras de James Bond, o Agente 007. Depois de sair da equipe de criação de Jornada nas Estrelas, voltei a desenhar biografias, mas agora de grandes atletas para as revistas Sports Illustrated para crianças e Soccer Jr. Magazine.

James Bond 007 - Pablo Marcos Art

9. O que são exatamente as Pablo’s Illustrated Visions?


Marcos: Uma opção que ofereço a qualquer sonhador, visionário ou entusiasta que queira transformar sua ideia em obra de arte. Eu ofereço a possibilidade de que os interessados possam ver a si mesmos em uma imagem na qual eles se reconhecem, fazendo o que mais gostariam.


10. Como foi a experiência de desenhar a vida de Pelé para a Soccer Junior Magazine? E aproveitando o tema do futebol: o que você espera do Peru na Copa do Mundo da Rússia?


Marcos: Nessa revista, eu ilustrei a vida de grandes jogadores americanos. Um dia, fui visitar Joe Provey, editor da revista em Connecticut, e tive a agradável surpresa de receber a proposta para ilustrar a biografia de Pelé. O futebol sempre foi minha paixão, meu esporte favorito. Claro que aceitei o projeto com alegria. Assim, em parceria com meu amigo e escritor argentino Hector Bellagamba, fizemos 23 páginas com a vida do Rei do Futebol: Pelé. Eu mesmo fiz a cor manualmente. Em 1999, foram publicadas 4 páginas mensais na revista e tenho os originais e os direitos para publicá-los todos juntos assim que encontrar a editora certa. Tenho esperanças de que isso aconteça até a Copa do Mundo de 2018.


Por falar em Copa, acho que o Peru tem uma equipe muito boa, com jogadores talentosos como Paolo Guerrero e Christian Cueva. Esse jogador é um gênio do futebol, e com a direção do grande técnico Ricardo Gareca, acredito que vamos chegar bem longe!


Muito obrigado por esta entrevista e, juntamente com Myriam, minha amada esposa, eu me despeço de você e dos meus queridos seguidores direto desta agradável cidade cercada por majestosas montanhas no departamento de Antioquia, na Colômbia.


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