• Mario Luiz C. Barroso

10 Perguntas - Jeff Gomez

Atualizado: Out 21

Você sabe o que é transmídia? A entrevista a seguir vai te dar uma noção – ou aprofundar seus conhecimentos.

Foto: Divulgação Sony

Jeff Gomez, diretor-presidente da Starlight Runner Entertainment, empresa nova-iorquina fundada por ele em maio de 2000, nos ajuda a entender como, nas últimas décadas, a transmídia se tornou cada vez mais necessária no mundo do entretenimento, ambientes corporativos e até mesmo nas políticas públicas.


Basicamente, os métodos e recursos da transmídia visam estabelecer uma estrutura de diálogo com o público, sondando sua opinião e até mesmo viabilizando sua participação no “universo” em questão através de celulares, jogos, aplicativos, redes sociais e da internet em si. Hoje em dia, a narrativa em transmídia já está sendo ensinada em universidades da América do Norte, Europa, Ásia e, sim, do Brasil.


A Starlight Runner é uma das maiores empresas do ramo, tendo como clientes nada menos que Disney, Sony, Hasbro, Mattel e Acclaim, entre outras, fidelizando clientes e ajudando a vender mais brinquedos, videogames e ingressos de cinema – onde já atuou em filmes como O Espetacular Homem-Aranha 2, Homens de Preto e Avatar.



Jeff Gomez, fundador da Starlight, estudou cinema, comunicação e literatura comparada no Queens College. Depois de comandar a editora Gateways Publications nos anos 1980, tornou-se editor, produtor e roteirista na Valiant Comics e Acclaim Entertainment, onde escreveu as histórias em quadrinhos de Magic: The Gathering. Em setembro de 2018, Gomez será um dos 48 “personagens reais” do livro Nevertheless, We Persisted (E Ainda Assim, Persistimos), onde cada autor relata um momento de sua juventude onde foi excluído devido à sua etnia, gênero ou identidade sexual – mas, mesmo assim, seguiu em frente e alcançou o sucesso.


Recentemente, Gomez encontrou espaço em sua apertada agenda para conversar com o CCQ…

  • Como você resumiria a definição de transmídia para alguém que nunca ouviu falar do assunto?

Enquanto palavra, transmídia significa “através de múltiplas plataformas de mídia”. Na Starlight Runner, nós geralmente usamos esse termo associado a outro, como, por exemplo, narrativa em transmídia, produção de transmídia ou desenvolvimento de transmídia.


A combinação mais comum, narrativa em transmídia, se refere à comunicação coordenada de mensagens, temas ou narrativas em diversas plataformas de mídia. Isso é feito de um modo artístico, em que cada meio contribui para a história maior. O método ou técnica da narrativa em transmídia também se distingue por uma característica participativa, que nós chamamos de arquitetura para diálogo.

  • Você acha que o público em geral já sabe da existência da transmídia e suas ações?

O termo narrativa em transmídia ainda não foi amplamente adotado pelo público, mas esse nunca foi o objetivo. É um termo técnico usado por produtores nas áreas do entretenimento, propaganda e marketing ou comunicação em massa.


Porém, hoje em dia, cada um de nós está vivenciando a narrativa em transmídia o tempo todo. As grandes redes televisivas e franquias cinematográficas contam suas histórias em um conjunto de mídias (Guerra nas Estrelas, Harry Potter, Marvel), e nós vemos sua utilização das campanhas de propaganda às comunicações sociopolíticas, por exemplo.

  • Na sua opinião, em quantos anos os estúdios de cinema, editoras, canais de tevê e agências de propaganda não serão mais capazes de sobreviver sem um profissional de transmídia?

Se o seu projeto custa centenas de milhões de dólares para produzir e você precisa que ele dure mais de um ou dois anos, é absolutamente necessário ter uma estratégia de transmídia pelo menos para o marketing do produto. E, cada vez mais, as grandes franquias estão se alavancando por meio de recursos da transmídia.

  • É possível considerar George Lucas um dos pioneiros da transmídia? Em que sentido?

O Lucas reconheceu a técnica da narrativa em transmídia que havia se popularizado no Japão no começo dos anos 1970 e a introduziu no universo de entretenimento americano como estratégia de negócios. Ele trouxe a noção de que o mundo de sua história pode ser consistente em diversas mídias, e de que você pode aumentar o valor de toda a franquia com a transmídia em vez de sugar cada dólar possível através do licenciamento exaustivo.

  • Que tipo de profissional e/ou experiências são essenciais para que uma empresa de transmídia funcione corretamente?

Os princípios de uma empresa de transmídia devem compreender os processos de desenvolvimento, produção e distribuição nos mais diferentes tipos de mídia. A abordagem da produção de um videogame é totalmente diferente da de uma revista em quadrinhos, por exemplo. A empresa de transmídia precisa conhecer ambos os processos e todo o resto.


Os profissionais da transmídia precisam ter uma profunda compreensão da narrativa e do desenvolvimento de mundos fictícios que devem ser grandes e fortes o suficiente para se ampliarem através de diferentes plataformas e gerar várias horas de conteúdo.


Por fim, os profissionais da transmídia precisam entender a forma que diferentes empresas trabalham a fim de que ideias complexas e estratégias de transmídia possam ser descritas e implementadas nas mais variadas divisões da empresa de seu cliente.

  • Por que você sentiu que seria importante ter um talento dos quadrinhos como Fabian Nicieza em sua equipe principal?

O Fabian possui uma profunda compreensão de histórias, uma vez que já escreveu, editou e publicou centenas delas! Ele também sabe lidar com personagens que são icônicos e não nos pertencem. Nossos clientes querem que nós contemos qual é a melhor forma de aproveitar seus personagens, e o Fabian tem muita experiência nesse sentido! Ele também foi executivo, e sempre é bom poder contar com alguém que tem a compreensão de quem já administrou uma empresa.

  • O que você esperava do Nicieza?

No nosso ramo, precisamos de alguém que compreenda os objetivos e entenda a cultura da empresa-cliente bem depressa, pois assim conseguimos trabalhar. O Fabian capta tudo isso muito rápido, além de escrever na velocidade de um raio e jamais perder prazos. Isso é raro e importante para uma empresa de transmídia!


  • Que tipo de surpresas positivas ele trouxe para a Starlight Runner?

O Fabian tem um bom senso do que a audiência quer e de como se comunicar com ela claramente. Como eu penso nos mais variados detalhes e complexidades dos mundos fictícios, dependo dele para manter meus pés no chão e garantir que estamos atendendo às necessidades do cliente (em vez de, às vezes, seguir nossos próprios gostos). Portanto, volta e meia, temos algumas discussões acaloradas!


Ver o sucesso do Fabian com o Deadpool também foi uma fantástica surpresa. Quando começamos a trabalhar juntos na Starlight Runner em 2002, não tínhamos noção de que o personagem se tornaria um megassucesso em termos de franquia transmidiática.

  • Não se corre o risco de desmotivar as pessoas se elas sentirem que precisam fazer muita coisa para ter “a experiência completa” oferecida pelo pacote de transmídia?

Cada história em um universo de transmídia de uma franquia deve parecer completa. A audiência deve ficar satisfeita com a experiência, mas também curiosa para saber um pouco mais sobre aquele mundo fictício ou passar mais tempo com seus personagens. É isso que nos incentiva a continuar explorando os universos de transmídia.


Eu sempre recomendo aos clientes que o público só deve precisar assistir o conteúdo na plataforma principal (filme ou seriado de tevê, por exemplo) para compreender o que está acontecendo. Eu não preciso assistir os seriados do Justiceiro ou Agentes da SHIELD para entender e gostar dos filmes dos Vingadores… mas assistir a todos dá o prazer de estabelecer relações entre eles.

  • Os brasileiros adoram novelas. Você poderia esboçar uma ideia de como seria uma ação de transmídia para aumentar a audiência de uma delas?

Eu já trabalhei com a Globo, e eles me deixaram bem a par do processo de produção das telenovelas brasileiras. É fascinante, pois elas são feitas tão rápido que nos possibilita criar processos através dos quais os personagens interajam diretamente com certos elementos da audiência, transformando espectadores selecionados em personagens capazes de influenciar a narrativa. Eu adoraria fazer experiências com essa ideia utilizando técnicas interativas no estilo dos videogames. Eu também adoraria dar vida própria aos personagens de telenovela na mídia social, permitindo que eles interajam entre si e também com o público através das mais diversas plataformas desse tipo de mídia.

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