• Mario Luiz C. Barroso

10 PERGUNTAS - CARL POTTS, O MENTOR DE JIM LEE

Atualizado: Out 21


Carl Potts na Atlanta Comic Con 2018

Carl Potts nasceu em 11/11/1952 em Oakland, Califórnia. Formado em artes visuais, editoração e escrita criativa, Carl começou nos quadrinhos nos anos 1970, quando trabalhou com Jim Starlin na DC e, depois, integrou a equipe de Neal Adams na Continuity Comics. Roteirista, desenhista e arte-finalista, entrou na Marvel em 1983 e lá passou 13 anos. Como editor, descobriu vários talentos que hoje são famosíssimos e foi o responsável por lançar o primeiro e o segundo títulos mensais do Justiceiro, além de supervisionar as séries da Tropa Alfa e Quarteto Futuro, entre outras. Ainda na Marvel, assumiu o lugar de Archie Goodwin na linha Epic, voltada para a publicação de trabalhos autorais. Ali, criou a Legião Alien, título de sucesso cobiçado por Jerry Bruckheimer para levar a Hollywood. Depois de atuar durante alguns anos como diretor de criação da VR-1, empresa produtora de videogames online, Carl hoje é consultor criativo e estratégico de clientes do porte da Disney, DC Comics e Harper-Collins. Segundo o site especializado Comic Vine, Carl acumulou 752 créditos nos quadrinhos – nas mais diversas funções.


1. Você foi o editor responsável por publicar a primeira série mensal do Justiceiro depois da consagrada minissérie Círculo de Sangue. Quais foram seus desafios e recursos disponíveis no momento?

O sucesso da minissérie do Justiceiro foi uma grande surpresa. Sua equipe criativa havia tentado convencer outros editores a bancá-la, mas ninguém quis. Eu sempre gostei do trabalho do Mike Zeck e achei interessante a premissa de roteiro do Steven Grant. Por isso, eu me arrisquei.

Os dois demoraram um tempão produzindo a minissérie, e eu precisava de uma equipe criativa confiável, capaz de cumprir prazos todos os meses no novo título. Eu conheci o Mike Baron através do Grant e já gostava demais do trabalho dele nas séries Nexus e Badger, da First Comics. Ele me pareceu a escolha natural para assumir o roteiro de The Punisher mensal. E eu sempre gostei da arte do Klaus Janson no geral, bem como sua versão de Frank Castle na revista do Demolidor. Klaus aceitou desenhar, finalizar e colorir o gibi. Ele tem uma técnica única de colorização, o que deu um visual único à revista, mesmo no papel horrível em que imprimiam gibis na época.

2. Em muitas entrevistas, Mike Baron diz que gostaria de contar histórias simples, 100% policiais, mas que, de repente, passaram a pedir para ele envolver heróis e vilões com superpoderes nas tramas. Isso foi uma ideia sua para aumentar as vendas ou foram os altos escalões da Marvel que quiseram ver Frank Castle mais presente no universo da editora?

Eu acredito que as únicas vezes que nos pediram para incluir personagens Marvel que normalmente não são associados ao Justiceiro (como o Demolidor, Rei do Crime etc.) foram nos nossos grandes eventos.

3. Círculo de Sangue é considerado o volume 1 das séries do Justiceiro. Hoje, a revista mensal já passou do décimo volume, um raro fenômeno. Ignorando os constantes reboots da Marvel, por que você acha que esse título foi cancelado e relançado tantas vezes?

É muito fácil “entender errado” um personagem como o Justiceiro. Como editor e roteirista, eu tentei deixar bem claro quem é Frank Castle: no geral, um ser humano miserável que raramente resolvia problemas a longo prazo. Na maioria das vezes, ele deflagrava ou perpetuava ciclos de violência sem fim.

Ele vivia se culpando por falhar ao proteger a família dos gângsteres no parque. Ao confrontar criminosos violentos, Castle se coloca em uma posição na qual pode morrer ou ser mutilado – o que seria o preço pela falha na proteção da família. Muitos editores e criadores não adotaram essa abordagem simples e apenas viram o personagem como um psicótico dedicado a matar todos os criminosos que encontra. Volta e meia, os editores de outros personagens me enviavam tramas nas quais o Justiceiro fazia participações especiais, pedindo minha aprovação, mas a maioria trazia um Frank totalmente desfigurado.

Os demais roteiristas faziam o Justiceiro atirar em qualquer criminoso (inclusive camelôs e pessoas que não jogam o lixo no lixo), ou o faziam gostar de matar ou adotavam outras abordagens que, na minha opinião, não tinham nada a ver com a da série dele.

Depois de ser promovido, eu parei de supervisionar os títulos do Justiceiro e outros editores fizeram uma superexposição do personagem (três revistas mensais, várias graphic novels e um festival sem fim de participações em outros títulos). Se eu continuasse como editor responsável, meu plano era expandir o “Universo do Justiceiro”, com séries derivadas estreladas por personagens como os Mestres das Sombras, Mace etc… e o Frank apareceria nelas de vez em quando.

Juntando tudo isso com a queda no mercado de HQ, o pobre Castle foi parar no limbo por algum tempo.


4. Em 1988, Frank Castle ganhou seu segundo título mensal, Punisher: War Journal. Você escreveu e desenhou as primeiras edições, com arte-final do Jim Lee. Como foi trabalhar com o Jim em começo de carreira e o que você ensinou para ele na época?

Eu tinha muitas ideias para tramas com o Justiceiro, mas Mike Baron não teve nenhum problema em termos de criatividade e, portanto, não precisava das minhas ideias. Por isso, eu propus uma nova série na qual eu escrevesse e fizesse os esboços. Já fazia um ano que o Jim Lee estava desenhando a Tropa Alfa para mim e seu talento estava se desenvolvendo em ritmo acelerado.


Nem passou pela minha cabeça que ele gostaria de trabalhar em cima dos meus rabiscos. Afinal, Jim fazia seus próprios esboços para a Tropa. Um dia, quando discutíamos justamente um número da equipe canadense, comentei que estava procurando o desenhista ideal para trabalhar comigo em Punisher: War Journal. Para minha grata surpresa, ele se apresentou como voluntário!


Se você quer saber mais sobre o que o Jim tem a dizer sobre como eu o ajudei e ensinei, por favor, leia o prefácio que ele escreveu para o meu livro, The DC Comics Guide to Creating Comics: Inside the Art of Visual Storytelling (Guia DC Comics para Criar Quadrinhos: Por Dentro da Arte da Narrativa Visual):

Nada poderia me dar mais prazer do que fazer o prefácio deste livro do meu mentor e guru, Carl Potts. A grosso modo, tudo o que aprendi sobre como criar quadrinhos pode ser dividido em dois períodos: aC – também conhecido como “Antes do Carl” e o período posterior, que eu chamo de “a conquista das profundezas do vácuo”. Nos anos 1 a 22 aC, eu lutei para aprender a arte da narrativa visual. Só porque você ama ler quadrinhos e tem algum talento nato não significa que, automaticamente, você se qualifica a ser um artista de HQ. Aliás, eu acho que isso pesa contra o aspirante, pois ele pensa que sabe bem mais do que realmente sabe. Você acha que desenha melhor que o artista de quem você menos gosta mesmo sem conseguir completar uma página inteira por conta própria. Nunca. Eu era assim.

Mas, lá no fundo, eu sabia que precisava melhorar (porque ninguém estava me passando trabalhos, certo?). Daí, eu aprendi o máximo que pude sobre quadrinhos e narrativa visual nos poucos livros disponíveis na biblioteca local. Mas só foi quando conheci Carl Potts através de outro editor da Marvel – o saudoso e fantástico Archie Goodwin – que eu comecei a trilhar meu verdadeiro caminho em meio ao vácuo profundo. Porque a arte é um vácuo profundo quando nós percebemos que temos de recomeçar do zero. É preciso abandonar todos os artifícios e escudos defensivos (aqueles que você inventa para, preventivamente, se proteger das críticas cruéis) e aceitar o fato de que há muito para se aprender sobre arte. É necessário reaprender o básico… só que, desta vez, para valer. Estilo “Karate Kid”: passa a cera, tira a cera.

E foi nesse sentido que o Carl foi meu guia. Meu sensei. Meu mestre jedi. E ele me ensinou de tudo: desde os “22 quadros que sempre funcionam”, do Wally Wood, até a “como inovar”. Ele me deu livros com a espessura de uma lista telefônica explicando todos os detalhes da terminologia cinemática e narrativa visual. O Carl me passava bilhetes escritos à mão explicando onde acertei (muito pouco) e onde errei (de forma educada e com críticas construtivas) conforme eu entregava uma página de teste atrás de outra. Ele fez o esboço de vários dos meus maiores projetos.

Eu absorvi todas aquelas lições até me julgar pronto para pegar a pedra da mão dele – o desafio de iniciação pelo qual todos os novos artistas devem passar para ganhar uma vaga à tão sonhada mesa dos profissionais. Ou talvez meu desafio tenha sido pegar uma urna incandescente com os antebraços e carregar até os portões do dojô. Ou talvez ele tenha me pedido para escolher uma de duas pílulas em suas mãos – uma azul, outra vermelha. Eu não me lembro com muita precisão: o treinamento sem fim tem esse efeito na nossa mente. Mas seja lá qual foi o processo, deu certo. Eu virei um profissional dos quadrinhos, treinado para a primeira vez – de novo.

Eu brinco com o misticismo zen de todo o processo, mas, na verdade, tudo isso é muito sério. Eu aprendi muito com meu mentor, Carl Potts. Os anos trabalhando com ele serviram de base para boa parte do meu trabalho, mesmo quando eu fazia experiências, evoluía e quebrava as regras que aprendi no começo. Porque a grande verdade sobre a produção criativa é a seguinte: “só porque dá certo para você não significa que é o único jeito de se fazer algo”. Eu acho que essa foi a maior lição que Carl me deu, algo que fica extremamente claro neste fabuloso livro que você tem nas mãos. Sua subjetividade é tão nítida quanto sua objetividade, e essa relação é explorada e demonstrada com clareza nos capítulos adiante.

O que eu levei anos para aprender agora pode ser seu para desfrutar em poucos dias. Que a sua jornada no vácuo profundo seja doce e curta. Jim Lee Burbank, California

5. Você descobriu e treinou grandes talentos dos quadrinhos, como o Lee, Arthur Adams, Whilce Portacio e Mike Mignola. Como era o seu processo seletivo para gerar resultados tão surpreendentes?

Eu passava muito tempo analisando desenhos e testes que eu nunca havia


solicitado, mas chegavam pelo correio. Fora isso, eu também analisava filas intermináveis de portfólios nas convenções. Todos os artistas analisados ganhavam uma resposta que citava algo útil para ajudá-los a progredir. Os mais promissores recebiam atenção extra e ganhavam livros de treinamento em narrativa visual, desenho e composição. Quando eles me apresentavam trabalhos próximos do nível profissional, eu lhes enviava roteiros de histórias de 6 páginas para ver como se saíam criativa e profissionalmente. Era um trabalho extra absurdo, além da minha carga editorial, mas era muito gratificante ver o talento evoluir e chegar ao sucesso.


6. Anos mais tarde, Lee e Portacio saíram da Marvel para fundar a Image Comics. Eles te consultaram na época? O que você achou a iniciativa da Image na época e o que acha agora?

Tirando um almoço que eu tive com o Jim, quando lhe disse que seria melhor se ele não saísse da Marvel, não me lembro de ter conversas diretas com quem saiu da editora para fundar a Image.


Na época em que a nova empresa se formou, mais pareceu uma grande jogada

publicitária com muito pouco conteúdo original – alguns dos títulos mais pareciam cópias dos gibis da Marvel nos quais parte dos fundadores da Image tinham trabalhado. Eu estranhei todo aquele barulho e as reclamações de que eles eram desrespeitados pela Marvel, a editora que os contratou e ajudou a transformar em estrelas milionárias. Os fundadores da Image lançaram sua própria empresa com as fortunas que ganharam na Marvel. Quando eles começaram a contratar talentos “de fora” para ajudá-los a escrever ou desenhar HQ, os contratos da Image eram tão restritivos (ou até mais) que aqueles dos quais dos fundadores da nova editora tanto reclamaram na Marvel.


Por outro lado, todas as críticas à Marvel geraram muita publicidade positiva para eles. Com o tempo, a Image evoluiu e se tornou uma editora muito interessante, que produz uma quantidade imensa de material de qualidade. Na atual encarnação, a Image está fazendo um ótimo trabalho.

7. De volta ao Justiceiro: você escreveu o Punisher Movie Special, uma adaptação do primeiro filme do personagem, estrelado por Dolph Lundgren em 1990. Você escreveu esse gibi a partir do roteiro de cinema ou teve a chance de assistir ao filme primeiro?

Se não me falha a memória, eu trabalhei a partir do roteiro original, que era bem melhor que a versão usada para filmar.

8. O que você acha dos três filmes do Justiceiro e da série de Netflix? Dá para enxergar ali as bases que você ajudou a estabelecer para o personagem?

O primeiro filme foi uma grande decepção, assim como os dois seguintes. A série da Netflix, embora excessivamente brutal e, na minha opinião, interpretando errado certas facetas do personagem é, de longe, bem melhor que os três filmes juntos.


9. Você, Alan Zelenetz e Frank Cirocco criaram a Legião Alien para o selo Epic Marvel. O sucesso do título levou o cineasta Jerry Bruckheimer a comprar um roteiro seu para produzir um longa-metragem. Será que nós ainda vamos assistir esse filme um dia?

O prazo do filme do Bruckheimer com a Disney venceu. Eles passaram uma década pedindo para meia Hollywood reescrever o roteiro (com direito a três esboços do David Benioff), mas não conseguiram chegar a uma versão que considerassem pronta para filmar.

O prazo expirou, mas existem questões residuais do contrato que dificultam tremendamente a possibilidade de levar o projeto para outro estúdio. Mas eu andei trabalhando nele com outros parceiros. Portanto, cruze os dedos e me deseje boa sorte!

10. Você foi o editor da Epic Marvel, uma linha voltada para leitores adultos. O selo teve títulos longevos, como o Groo, de Sergio Aragonés. Qual era o segredo do sucesso da Epic e por que você acha que a linha foi cancelada?

O selo Epic foi criado pelo genial Archie Goodwin. Quando ele foi embora para a DC Comics, eu assumi o nada invejável desafio de ocupar a vaga dele. A Epic tinha toda a retaguarda da produção/impressão/distribuição da Marvel. Ao mesmo tempo, ela sempre ficava à sombra dos títulos tradicionais quando se tratava de promoção e marketing.


Ao contrário de muitas editoras de títulos autorais, a Epic/Marvel pagava uma bela quantia adiantada no que se referia aos royalties. Quando o mercado de quadrinhos começou a desabar no começo dos anos 90 e as vendas despencaram, boa parte da linha Epic ficou deficitária, já que esses adiantamentos não eram mais recuperados após as vendas dos gibis.

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